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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Evolution caught in the act: scientists measure how quickly genomes change

Stephan Ossowski, Korbinian Schneeberger, José Ingnacio Lucas-Lledó, Norman Warthmann, Richard M. Clark, Ruth G. Shaw, Detlef Weigel and Michael Lynch.

Fonte: Max Planck Society
http://www.mpg.de/english/illustrationsDocumentation/documentation/pressReleases/2009/pressRelease20091228/index.html

Publicado em 01/01/2010
Original work:
The rate and molecular spectrum of spontaneous mutations in Arabidopsis thaliana.
Science, January 1, 2010

Mutations are the raw material of evolution. Scientists at the Max Planck Institute for Developmental Biology in Tubingen, Germany, and Indiana University in Bloomington have now been able to measure for the first time directly the speed with which new mutations occur in plants. Their findings shed new light on a fundamental evolutionary process. They explain, for example, why resistance to herbicides can appear within just a few years.


Different mutants of Arabidopsis thaliana.

"While the long term effects of genome mutations are quite well understood, we did not know how often new mutations arise in the first place," said Detlef Weigel, director at the Max Planck Institute in Germany. It is routine today to compare the genomes of related animal or plant species. Such comparisons, however, ignore mutations that have been lost in the millions of years since two species separated. The teams of Weigel and his colleague Michael Lynch at Indiana University therefore wanted to scrutinize the signature of evolution before selection occurs. To this end, they followed all genetic changes in five lines of the mustard relative Arabidopsis thaliana that occurred during 30 generations. In the genome of the final generation they then searched for differences to the genome of the original ancestor.

The painstakingly detailed comparison of the entire revealed that in over the course of only a few years some 20 DNA building blocks, so called base pairs, had been mutated in each of the five lines. "The probability that any letter of the genome changes in a single generation is thus about one in 140 million," explains Michael Lynch.

To put it differently, each seedling has on average one new mutation in each of the two copies of its genome that it inherits from mum and dad. To find these tiny alterations in the 120 million base pair genome of Arabidopsis was akin to finding the proverbial needle in a haystack, says Weigel: "To ferret out where the genome had changed was only possibly because of new methods that allowed us to screen the entire genome with high precision and in very short time." Still, the effort was daunting: To distinguish true new mutations from detection errors, each letter in each genome had to be checked 30 times.

The number of new mutations in each individual plant might appear very small. But if one starts to consider that they occur in the genomes of every member of a species, it becomes clear how fluid the genome is: In a collection of only 60 million Arabidopsis plants, each letter in the genome is changed, on average, once. For an organism that produces thousands of seeds in each generation, 60 million is not such a big number at all.

Apart from the speed of new mutations, the study revealed that not every part of the genome is equally affected. With four different DNA letters, there are six possible changes—but only one of these is responsible for half of all the mutations found. In addition, scientists can now calculate more precisely when species split up. and its closest relative, Arabidopsis lyrata, differ in a large number of traits including size and smell of flowers or longevity: Arabidopsis lyrata plants often live for years, while Arabidopsis thaliana plants normally survive only for a few months. Colleagues had previously assumed that only five million years had passed by since the two species went their separate ways. The new data suggest instead that the split occurred already 20 million years ago. Similar arguments might affect estimates of when in prehistory animals and plants were first domesticated.

On a rather positive note, the results of the US-German team show that in sufficiently large populations, every possible mutation in the genome should be present. Thus, breeders should be able to find any simple mutation that has the potential to increase yield or make plants tolerate drought in a better manner. Finding these among all the unchanged siblings remains nevertheless a challenging task. On the other hand, the new findings easily explain why weeds become quickly resistant to herbicides. In a large weed population, a few individuals might have a mutation in just the right place in their genome to help them withstand the herbicide. "This is in particular a problem because herbicides often affect only the function of individual genes or gene products," says Weigel. A solution would be provided by herbicides that simultaneously interfere with the activity of several genes.

Turning to the larger picture, Weigel suggests that changes in the human genome are at least as rapid as in Arabidopsis: "If you apply our findings to humans, then each of us will have on the order of 60 new that were not present in our parents." With more than six billion people on our planet, this implies that on average each letter of the human genome is altered in dozens of fellow citizens. "Everything that is genetically possible is being tested in a very short period," adds Lynch, emphasizing a very different view than perhaps the one we are all most familiar with: that evolution reveals itself only after thousands, if not millions of years.

Como surgiram os dinossauros?

Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

Fonte: Ciência Hoje
http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/como-surgiram-os-dinossauros
Publicado em 01/01/2010

Alexander Kellner apresenta em sua primeira coluna de 2010 o estado da arte na pesquisa sobre a origem do mais famoso grupo de répteis fósseis e mostra como novos achados estão ajudando a esclarecer essa questão.

Desenhos de dinossauros do Triássico, período a que pertencem os registros mais antigos desses animais (ilustração: Langer,M.C.; Ezcurra, M.D.; Bittencourt, J.S. & Novas, F.E. 2009. The origin and early evolution of dinosaurs. Biol. Rev. 84:1-56).

Vamos começar o ano em grande estilo. Além de convocar o leitor para eleger o principal achado da paleontologia em 2009 – a primeira vez que uma iniciativa desse tipo é realizada (veja paleocurta) –, nesta primeira coluna de 2010 abordaremos um dos temas mais interessantes da pesquisa sobre dinossauros: a sua origem.

O momento não poderia ser mais propício, pois nos últimos anos diversos novos fósseis foram encontrados, ajudando os pesquisadores a formular algumas hipóteses sobre quando e onde esses répteis surgiram. Em um grande esforço de apresentar os principais dados sobre essa discussão, colegas brasileiros e argentinos, coordenados por Max Langer (USP-Riberão Preto), publicaram uma extensa revisão sobre o tema na Biological Reviews.

O que é um dinossauro?

Nos últimos anos, a descoberta de novos fósseis ajudou os cientistas a formular hipóteses sobre quando e onde os dinossauros surgiram.

O ponto de partida para se estabelecer a origem dos dinossauros é determinar quais são as espécies que devem ser classificadas nesse grupo. Ao criar o termo Dinosauria (que pode ser traduzido como "répteis terríveis") em 1842, o paleontólogo inglês Richard Owen tinha apenas três gêneros em mente: Megalosaurus, Iguanodon e Hylaeosaurus.

Quase 170 anos mais tarde, temos mais de 500 gêneros com 1.000 espécies denominadas, das quais apenas cerca de 700 são consideradas válidas. Talvez o leitor se surpreenda um pouco com essa discrepância, mas o motivo é bem simples: em muitos casos, espécies foram estabelecidas com base em exemplares muito incompletos e fragmentados, cujo estudo posterior demonstrou não possuírem características capazes de permitir a distinção de uma espécie de outra.

O consenso entre os pesquisadores determina que, para ser considerado um dinossauro, o animal obrigatoriamente tem que pertencer a um de dois grupos: Saurischia ou Ornithischia.

As principais características que distinguem os dinossauros dos demais répteis (incluindo os dinossauromorfos basais, que reúnem espécies proximamente relacionadas aos dinossauros) são encontradas, sobretudo, na bacia, pernas e patas. Entre as mais facilmente identificáveis está a região da bacia (pélvis) onde se encaixa a perna, que é chamada de acetábulo. Enquanto os répteis primitivos possuem o acetábulo fechado, coberto por uma parede óssea, os dinossauros – tanto os saurísquios como os ornitísquios – têm o acetábulo perfurado. Até nas aves, que são consideradas dinossauros, pode-se observar um acetábulo perfurado.

Bacia (pélvis) de um réptil primitivo (A), um dinossauro ornitísquio (B) e um dinossauro saurísquio (C). A região onde se encaixa a perna, chamada de acetábulo (ac, em vermelho), é perfurada nos dinossauros, mas coberta por uma lâmina óssea nos répteis primitivos. O osso mais escuro é o púbis, voltado para trás nos ornitísquios (B) e para frente nos saurísquios (C), condição também encontrada nos répteis primitivos (A).

Quando, onde e quem?

Os registros mais antigos confirmados de dinossauros são provenientes de rochas do Triássico, com aproximadamente 230 milhões de anos. Os depósitos principais estão situados na Argentina (Formação Ischigualasto) e no Brasil (Formação Santa Maria). Restos de possíveis dinossauros triássicos foram encontrados em alguns outros países, mas são muito fragmentados, o que dificulta a sua identificação. Assim, o que se pode dizer é que a origem dos dinossauros provavelmente se deu na parte sul do supercontinente Pangeia (que reunia todos os continentes de hoje), talvez no Brasil ou na Argentina.

As principais formas argentinas são Herrerasaurus, Pisanosaurus e Eoraptor, enquanto as brasileiras são Staurikosaurus e Saturnalia. Porém, existem pegadas com cerca de 233 milhões de anos que poderiam pertencer a dinossauros, o que sugere que a origem desses répteis poderia ser ainda mais antiga.

Origem e domínio

Talvez o aspecto mais problemático de toda a discussão esteja centrado na seguinte pergunta: que tipo de réptil deu origem aos dinossauros? As pesquisas apontam que os "répteis terríveis" se desenvolveram a partir de animais relativamente pequenos, presentes em ambientes terrestres há aproximadamente 233 milhões de anos. Existem duas hipóteses concorrentes: esses ‘protodinossauros’ poderiam ser formas bípedes, tais como o Marasuchus, ou formas que se locomoviam (pelo menos em parte do tempo) sobre as quatro patas, como o Silesaurus.

Os cientistas discutem se a origem dos dinossauros se deu a partir de formas bípedes, como o ‘Marasuchus’ da Argentina (B), ou de formas quadrúpedes, como o ‘Silesaurus’ da Polônia (A). Ilustrações: ‘Marasuchus’ de Maurílio Oliveira (KELLNER, A.W.A. & CAMPOS, D.A. 2000. Brief review of dinosaur studies and perspectives in Brazil. An. Acad. Brasil. Ci. 72: 509-538); ‘Silesaurus’ de Jerzy Dzik (Dzik, J. 2003 A Beaked Herbivorous Archosaur with Dinosaur Affinities from the Early Late Triassic of Poland. J. Vert. Paleont. 23: 556-574).

Aliás, diga-se de passagem, este último dinossauromorfo basal foi um dos achados mais interessantes dos últimos anos. A descoberta de Silesaurus na Europa (Polônia) demonstra que os répteis que antecederam os dinossauros eram mais diversificados do que se supunha e não estavam restritos à América do Sul (como o Marasuchus da Argentina e o Sacisaurus do Brasil). Sempre é bom relembrar que, durante aquele tempo, os continentes estavam todos juntos (formando a Pangeia), o que facilitava a distribuição dos animais por áreas bem amplas.

Reconstrução de ‘Staurikosaurus pricei’, encontrado em rochas do Triássico da Formação Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Essa forma brasileira é um dos mais antigos registros de dinossauros do mundo e surgiu antes do domínio desses répteis na Terra (ilustração: Maurílio Oliveira).

Com base no registro atual dos dinossauros, pode ser estabelecido que apenas cerca de 20 milhões de anos após o seu surgimento esses répteis começaram a dominar os ambientes terrestres. Esse domínio se deu por meio de formas herbívoras como o Plateosaurus da Europa e o Unaysaurus do Brasil e de espécies carnívoras como o Coelophysis e o Tawa da América do Norte – descoberto recentemente.

Mas um ponto parece curioso: apesar dos novos achados, os pesquisadores continuam indecisos com relação às duas hipóteses que procuram explicar o sucesso dos dinossauros. Esses répteis teriam sido mais bem adaptados às condições ambientais da época – particularmente por serem bípedes – ou então tiveram ‘sorte’ e passaram a ocupar nichos ecológicos abertos após a extinção de alguns competidores no final do Triássico?

As pesquisas continuam e, seguramente, as descobertas nos depósitos triássicos do Rio Grande do Sul vão contribuir bastante para as discussões relacionadas à origem dos "répteis terríveis".

sábado, 26 de dezembro de 2009

The Out Campaign

The Out Campaign: Scarlet Letter of Atheism

Campanha OUT

Ateus sempre estiveram na vanguarda do pensamento racional, e agora você pode compartilhar seus ideais fazendo parte da Campanha OUT.
come out

Ateus são muito mais numerosos do que a maioria das pessoas imagina. Saia do armário! Você se sentirá livre, e seu exemplo vai encorajar outros a sair também (Não "tire" ninguém, espere que eles saiam por si mesmos quando estiverem prontos).
reach out

A Campanha OUT permite aos indivíduos mostrar aos outros que não estão sozinhos. Também pode ser uma boa forma de se iniciar uma conversa e ajudar a demolir os estereótipos negativos dos ateus. Deixe o mundo saber que não estamos prestes a desaparecer e que não vamos permitir que aqueles que nos condenam empurrem-nos para as sombras.
speak out

À medida que mais e mais pessoas aderirem à Campanha OUT, menos e menos pessoas se sentirão intimidadas pela religião. Nós podemos ajudar os outros a compreender que existem ateus de todas as formas, tamanhos, cores e personalidades. Somos trabalhadores e profissionais. Somos mães, pais, filhos, filhas, irmãs, irmãos e avós. Nós somos humanos (somos primatas) e somos bons amigos e bons cidadãos. Somos boas pessoas que não têm necessidade de se agarrar ao sobrenatural.
keep out

É tempo de deixar as nossas vozes serem ouvidas quanto à intrusão da religião nas nossas escolas e na política. Ateus, juntamente com milhões de outros estão cansados de ser intimidados por aqueles que empurram seus próprios conceitos religiosos garganta abaixo de nossos filhos e nossos governos. Precisamos manter o sobrenatural fora de nossos princípios morais e políticas públicas.

É hora de dar um passo a frente e... sair do armário.
stand out

Temos muitos planos e atividades para a Campanha OUT, por isso não deixe de visitar OutCampaign.org para as últimas informações.

Mais informações em:
http://outcampaign.org/
http://richarddawkins.net/

domingo, 20 de dezembro de 2009

Já vi esse filme...

Pensando bem, vamos aos fatos: Flamengo campeão, Internacional vicecampeão e Sport na segunda divisão. Já vi esse filme antes... Daqui a pouco a CBF inventa outro título de araque para os bâmbis do Nordeste...

Aos que inventam títulos...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Por que hexa?

Ronaldo Helal
Texto publicado na coluna Opinião de O Globo em 8 de dezembro de 2009.

O Flamengo é hexacampeão brasileiro nos gritos da torcida, nas faixas, na imprensa e até no site da Fifa. Por que então uma minoria questiona o hexa? A discussão em torno da pergunta expressa o dilema da cultura brasileira, como colocado pelo antropólogo Roberto DaMatta: a tensão entre códigos impessoais e pessoais. A Copa União, idealizada pelo então recém-fundado Clube dos 13, vencida pelo Flamengo e pivô da polêmica, foi um marco no futebol brasileiro, obtendo a segunda melhor média de público da história até aquele momento.

A presença do dilema brasileiro aparece já nos antecedentes.

As regras do campeonato de 1986 haviam sido infringidas para favorecer um grande clube a entrar na segunda fase da competição, com três outros de menor expressão, apesar de não terem se classificado pelo regulamento. O campeonato de 1986 retornou em 1987, com o início dos torneios regionais, gerando complicações, pois os clubes que disputavam as semifinais recusaram-se a competir, naquele período, em seus campeonatos locais.

Em maio de 1987 a CBF afirmou que não tinha recursos para organizar o campeonato daquele ano.

Em 1985 um presidente civil assumiu o poder, após duas décadas de ditadura, sendo que desde 1984 a luta por eleições diretas e por uma nova Constituição espalhou-se pelo país. É neste cenário que surge o Clube dos 13.

Entre outras coisas, o Clube dos 13 propunha o campeonato com 13 clubes e a adoção do voto proporcional na CBF.

A política de troca de favores sustentava o poder político da CBF que, sob a égide do voto unitário, proporcionava às pequenas ligas e clubes um poder de decisão maior do que o dos grandes clubes

De um lado, a CBF, entidade amparada na legislação, e, de outro, o Clube dos 13, integrando os grandes clubes. Um campeonato sem esses clubes seria inconcebível. Mas se abandonassem a CBF a Fifa não os reconheceria. A disputa entre o legal e o legítimo foi a base para o acordo entre as partes.

No dia 4 de setembro de 1987 foi noticiado o acordo. O campeonato teria 16 times no módulo verde e 16 no amarelo. O Clube dos 13 negociaria o evento enquanto a CBF incluía três times. Restava uma dúvida. O campeão do módulo verde (Copa União) seria o campeão brasileiro? No comunicado entregue à imprensa pela CBF estava escrito que "a classificação dos representantes do Brasil na Taça Libertadores da América ocorrerá na abertura da temporada de 1988, sob forma de um torneio quadrangular, integrado pelos dois primeiros colocados dos módulos verde e amarelo" (O Globo, 04/09/87). Por que esta cláusula esdrúxula? Por que os representantes nacionais na Libertadores teriam que sair de um quadrangular entre os campeões da primeira e da segunda divisão? Simplesmente porque o poder da CBF estava assentado no apoio de clubes de menor expressão, em uma política nociva de troca de favores que, por muitos anos, produzia campeonatos inchados e deficitários.

O Clube dos 13 não aceitou o quadrangular, visto como um retrocesso em relação as suas reivindicações e uma depreciação à competição, e a CBF, por razões políticas, manteve o que estava escrito. A conquista do campeonato de 2009 pelo Flamengo traz o impasse à tona outra vez. Fora do âmbito das relações jocosas entre torcidas, a desconsideração da CBF ao título do Flamengo em 1987 é um desrespeito aos atletas, aos torcedores e aos dirigentes dos clubes que participaram da competição. Retirar do Sport um título, ainda que esdrúxulo, que ele ostenta há 22 anos seria, no momento, indigno. A conciliação é inexorável. A CBF declararia dois campeões em 1987: o Flamengo e o Sport. Não seria a primeira vez com dois campeões. O Campeonato Carioca, por exemplo, teve dois campeões durante os anos de 1933 a 1936, já que a entidade máxima do futebol não reconhecia a recém-criada liga profissional. Mas é preciso dar um basta nesta oscilação entre códigos impessoais e pessoais. Este dilema, tal como colocado por Roberto DaMatta, não pode ser uma marca indelével de nossa sociedade.

Ronaldo Helal é sociólogo e professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

sábado, 25 de julho de 2009

Não existe fé raciocinada mas, mesmo assim, Rivail estava correto

Antônio Margarido

Fonte:
http://avessodoavesso.zip.net/

Postagem dedicada ao amigo Antônio Margarido.

O título é provocativo. Sabemos que ao filósofo espiritualista Hippolyte Léon
Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido como Allan Kardec, combatia a fé
cega – devendo ser raciocinada. Com isso chamava a atenção para sermos sempre
racionais em todos os assuntos. Radicalmente racionais. Isso diferenciaria, na
concepção de Rivail, o conceito espírita daquele próprio da religião cristã,
seja em sua vertente católica ou protestante, e também do espiritualismo em
geral. Afirmamos, no entanto, não existir a fé raciocinada. E mesmo assim Rivail
tinha razão. Como isso é possível?

Fé raciocinada: contradição em termos

Por que não existe fé raciocionada? Fé raciocinada é uma contradição em termos.
Há contradição numa expressão quando seus termos exprimem ou referem-se a idéias
incompatíveis. Fé e razão são termos incompatíveis, referindo-se a realidades,
situações totalmente diferentes, onde uma nega a outra.

O termos fé tem origem na palavra latina fides que significa fidelidade.
Fidelidade, por sua vez, é tanto a adequação mais perfeita possível a um modelo
como o compromisso com aqueles que defendem e adotam esse modelo. Diz-se fiel
aquele que incorpora de corpo e alma o modelo. Vale dizer: todos os pensamentos,
palavras e atos da pessoa estão em consonância absoluta com o modelo, expressam
o modelo.

A fé pressupõe portanto conjunto de crenças assumidas incondicionalmente em
termos subjetivos e objetivos pelo adepto. Essas crenças independem de qualquer
evidência na realidade, seja material, seja espiritual. Por esse motivos seus
conteúdos expressam-se de forma dogmática, colocando-se como verdades absolutas
e inquestionáveis.

Essa dogmática é estabelecida por um grupo de especialistas (sacerdotes,
teólogos, etc), que se impõem junto à multidão de fiéis como autoridades,
vinculados a alguma instituição. Assim a dogmática é posta e imposta de forma
inquestionável, mantida através dos pensamentos, palavras e obras dos fiéis. Com
isso se estabelece a ortodoxia em conjunto com a ortopraxia, vale dizer: um
sistema de pensamento correto e inquestionável (ortodoxia) e um conjunto de
práticas igualmente corretas e inquestionáveis (ortopraxia). Em síntese: a fé
não admite questionamento.

A razão, desde os pré-socráticos entre os gregos até os dias atuais tem como
ponto essencial ser reflexiva, através de contínuo e infindável questionamento.
Diante da razão a ortodoxia e a ortopraxia não resistem como também a fé e o
dogma. Tudo é objeto de reflexão e questionamento.

São duas visões de mundo contraditórias: aquela do homem de fé e aquela do homem
racional. Para o primeiro a dúvida não existe: existem somente certezas; para o
segundo somente a dúvida existe: não existe certeza. Não há como alguém ser ao
mesmo tempo homem de fé e questionador, reflexivo.

Razão e crença

A razão não nega, porém, a crença. Qualquer questionamento parte de conjunto de
crenças adotadas provisoriamente, dentro de determinado contexto. A crença
racional não é dogmática pois não se impõe como verdade absoluta mas tão somente
como verdade relativa dadas certas circunstâncias, dado certo contexto.

A análise racional chega sempre a resultados provisórios, enquanto a análise
tendo como pressuposto a fé é sempre absoluta, definitiva. Enquanto a razão
apóia-se em dados da realidade objetiva, em evidências e também em deduções
lógicas, a fé nega a realidade objetiva se contraria seus pressupostos tidos
como absolutamente verdadeiros.

Como é sempre reflexivo o comportamento racional é o mais compatível com o
livre-arbítrio, possibilitando liberdade de pesquisa e de reflexão. Dado a
impossibilidade dos dogmas serem questionados e a exigência de adequação
absoluta ao modelo, o comportamento fiel nega o livre-arbítrio, impossibilitando
ou limitando a pesquisa e a reflexão.

A crença racional é aberta, sempre passível de questionamento, sempre passiva de
ser verificada pelos fatos da realidade objetiva, sempre aferível pelos os
outros e livremente compartilhada. A crença fiel é fechada, não sendo passível
de ser questionada e nem de ser verificada, contrariando os fatos da realidade
objetiva e sendo impossível de ser verificada pelos outros e livremente
compartilhada.

Impossibilidade da fé raciocinada: a crença racional

Dadas essas conclusões compreende-se porque é impossível a fé raciocinada: por
uma impossibilidade lógica, por serem expressões contraditórias em si mesmas e,
por isso, colocando-se como contradição em termos. Pode-se falar, no entanto, em
crença racional e isso tanto no campo científico como no propriamente filosófico
e mesmo religioso.

A religião racional seria aquela que não nega a razão e, por isso, está sempre
em consonância com seus postulados. Assim coloca-se sempre como passível de
verificação pelos fatos tanto no campo material, como no campo espiritual, mesmo
admitindo conclusões dedutivas – esta qualificadas de teorias como, ademais, faz
a própria ciência. Colocar as verdades como não absolutas seja em relação aos
fatos, seja em relação ao quadro teórico em sim mesmo também relativo, isso
tornaria a religião racional não dogmática e contrária a toda ortodoxia e
ortopraxia. Em síntese: a religião racional não admite a ortodoxia e a
ortopraxia.

Entendendo-se dessa forma podemos verificar existir um sistema de crenças tanto
para os cientistas como também para os propriamente religiosos – sem que os
primeiros se oponham aos segundos e vice-versa. Pois a ciência não pode impor
sua visão de mundo como absoluta. Se isso ocorresse, deixaria de ser racional.

Três possibilidades de compreensão: racional, irracional e arracional

Há três possibilidades de compreensão do mundo: racional, irracional e
arracional. A razão apóia-se em dados objetivos e subjetivos, sendo sempre
aberta a questionamentos e verificação. Isso ocorre dentro do quadro de
referências que dizemos irracional: aquilo que ainda não conhecemos e é passível
de ser conhecido em termos racionais, dizemos irracional.

Assim há contínua correlação entre o racional e o irracional, onde podemos dizer
que o racional faz parte de nossa consciência do mundo enquanto o irracional faz
parte de nossa inconsciência do mundo, ou de nosso inconsciente. O quadro de
referências racional está sempre se alimentando do quadro de referências
irracional, aumentando o os limites de nossa consciência da realidade que, em si
mesma, é racional/irracional, conhecida/desconhecida, consciente/inconsciente.

A investigação do racional/irracional não nega o livro arbítrio: ao contrário, o
livre arbítrio é imprescindível para ocorrer a expansão da consciência,
decorrente da pesquisa racional/irracional. E esse tipo de investigação é
assentado em evidências e, por isso, expressa-se sempre como teoria provisória.
Se determinada evidência demonstrar a teoria falsa, abandona-se a teoria. Não
existe verdade absoluta e definitiva para a investigação racional/irracional.

O arracional não pressupõe nenhum outro quadro de referências a não ser o seu
próprio: a arracionalidade é, com isso, autorreferente. É assentada, como
dissemos, na autoridade (sacerdotes, teólogos, etc), na instituição, na
ortodoxia e na ortopraxia. Não admite questionamentos e nega qualquer evidência
que possa contrariar aquilo que a autoridade afirma como verdade. Com isso, nega
o livre arbítrio e coloca suas doutrinas sempre como absolutas e definitivas.

A fé é arracional: impossibilidade da fé racional

Expressamos acima o modo racional contrapondo aquele próprio da fé – concluindo
não ser esta última racional. Na medida em que a fé nega os dados objetivos ela
nega também a razão e a irrazão. A fé não é, portanto, nem racional e nem
irracional: a fé é arracional, nega a razão e a irrazão. A compreensão do mundo
própria da fé tem como pressuposto corrigir aquilo que a razão nos diz ser
verdadeiro e correto, adptando-se à sua ortodoxia e ortopraxia, absolutamente
certas e corretas.

O sistema de crenças da fé é assim arracional. Dada essa constatação,
verificamos ser impossível uma fé raciocinada, pois ou a razão destrói a fé ou a
fé destrói a razão. Não há como misturar água e óleo. Por esse motivo não existe
fé raciocinada como apregoava o filósofo espiritualista Hippolyte Léon Denizard
Rivail.

Rivail estava errado mas também estava certo

Mas a crença é racional/irracional, sendo comum à ciência como também à
religião. Dado a religião, nesses termos, ter sempre existido desde os
primórdios do homem neste planeta. As crenças dos antigos xamãs eram
essencialmente racionais/irracionais, frutos sempre da experiência tanto com os
fenômenos objetivos como subjetivos. Da modo também ocorreu em outras religiões
existentes, como no budismo, no hinduísmo e mesmo no judaísmo, no cristianismo e
no islamismo.

A religião torna-se arracional na tradição cristã quando passou a ter a
hegemonia da teologia católica. Não se pode dizer ser isso próprio de todo
cristianismo e nem de todos os teólogos. A ortodoxia católica, fundamentada
teologicamente, catalogou de heresia todo o sistema de crenças racional e
irracional surgido no cristianismo e com isso estabeleceu círculo de ferro entre
ortodoxia e ortopraxia.

A reflexão que ora fazemos muito embora demonstre a impossibilidade da fé
raciocinada, aponta a existência da religião racional/irracional e, com isso,
tornando-se possível a aliança do conhecimento religioso com o conhecimento
científico. Toda a crença, seja religiosa ou científica, é em si mesma
racional/irracional e, assim, é essencialmente reflexiva tanto em relação aos
fenômenos objetivos como subjetivos. Assim a necessidade da crença racional é
fundamental e, nesse ponto, Rivail estava correto.

Este texto reflete os conhecimentos acumulados posteriormente às formulações de
Rivail, no final do século XIX até os dias atuais. Estamos em condições, dado o
quadro teórico atual, de afirmar existirem crenças tanto na ciência como na
religião, expressando-se de forma racional e irracional em ambos os campos do
conhecimento.

Assim concluímos ser toda crença racional enquanto está assimilada pela nossa
consciência e irracional, quando nos é ainda desconhecida, pertencendo ao
inconsciente – não sendo o campo do inconsciente impossível de ser verificado
também pela razão e, com isso, trazido ao nosso consciente. A crença expressa
nestes termos é comum tanto à ciência como à religião.

Existe, porém, e é dado da realidade, a religião arracional, como explicitamos
acima. Para esta não se trata de compreender, assimilar e assimilar-se à
realidade, mas de mudar a realidade segundo seus postulados indiscutíveis, seus
dogmas, adequando-a à sua ortodoxia e sua ortopraxia. Esta religião abre caminho
a todo tipo de fundamentalismo, um dos males principais dos tempos atuais.

O fundamentalismo religioso é o mais evidente pois se vincula à autoridade
temporal, impondo-se sobre a humanidade através de sucessivas matanças de seres
humanos discordantes de sua ortodoxia e ortopraxia. Mas há também o
fundamentalismo científico, cuja principal pregação é negar qualquer
possibilidade à religião, afirmando apenas a ciência como verdadeira. Assim
pregam o fim da religião de forma unilateral, estabelecem verdadeira guerra
contra a religião.

Os cientistas adeptos desse fundamentalismo são ateus e materialistas, negando
qualquer possibilidade da existência de Deus e do plano espiritual. Com isso
estabelecem também um tipo de ortodoxia e ortopraxia, tem seus sacerdotes e
cientólogos (contrapostos aos teólogos). As mentes mais abertas entre os
cientistas, como Albert Einstein ou Stephen Hawking, não são fundamentalistas
científicos. E estes são os responsáveis pelo avanço científico. Enquanto os
fundamentalistas científicos dão aos mãos aos fundamentalistas religiosos e a
guerra que entre si estabelecem, contribue somente para o aumento da miséria e
das opressão entre os homens, fomentando os contínuos banhos de sangue que
assolam os diferentes povos pelo mundo, decorrente da atuação de suas ortodoxias
e ortopraxias.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Israel cometeu crimes em ação 'sem precedentes' em Gaza, diz Anistia

BBC Brasil, em 2 de julho de 2009.

Fonte:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Um relatório da Anistia Internacional afirma que Israel cometeu crimes de guerra e promoveu uma destruição indiscriminada sem precedentes durante sua ofensiva militar na Faixa de Gaza no começo de 2009.

O relatório de 117 páginas afirma que centenas de civis palestinos foram mortos através do uso de armas de alta precisão e que outros foram mortos com tiros à queima-roupa "sendo que não representavam ameaça à vida de soldados israelenses".

A Anistia Internacional também acusa Israel de usar armas de baixa precisão, como artilharia e fósforo branco, em áreas densamente povoadas.

O documento também acusa o grupo palestino Hamas de cometer crimes de guerra, citando os ataques com foguetes lançados contra zonas residenciais em Israel.

A Anistia afirma que cerca de 1,4 mil palestinos foram mortos na ofensiva de 22 dias realizada por Israel entre 27 de dezembro de 2008 e 17 de janeiro de 2009, números que batem com as estatísticas divulgadas por palestinos.

Entre os mortos, mais de 900 eram civis, incluindo 300 crianças e 115 mulheres, de acordo com o relatório.

Em março, os militares israelenses afirmaram que, no total, o número de palestinos mortos foi de 1.116 pessoas, destas apenas 295 eram civis.

Em relação à ação militar israelense, a pesquisadora da Anistia e responsável pelo relatório Donatella Rovera, afirmou que houve três grandes violações das leis internacionais.

"Ataques indiscriminados diretos ou indiretos contra civis e alvos civis. Várias centenas de civis foram mortos como resultado destes ataques."

"Houve demolição e destruição de casas e de prédios civis em grande escala, e a destruição não poderia ser justificada como uma necessidade militar", afirmou.

"E as equipes médicas também foram impedidas de retirar os feridos além de ataques a algumas equipes médicas em ambulâncias. Tudo isto é violação das leis internacionais e constitui crimes de guerra", acrescentou.

'Erros profissionais'

Israelenses e palestinos rejeitaram o relatório da Anistia Internacional.

Israel atribuiu algumas das mortes de civis a "erros profissionais" e acrescentou que sua conduta seguiu as leis internacionais.

Autoridades israelenses afirmaram que seus militares atingiram apenas áreas nas quais os militantes palestinos operavam e acusaram o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, de transformar bairros civis em "zonas de guerra".

"Tentamos ser tão precisos quanto podíamos em uma situação de combate difícil", disse à BBC o porta-voz do governo israelense Mark Regev.

Yigal Palmor, porta-voz do Ministério do Exterior israelense, questionou a credibilidade do relatório da Anistia.

"Este relatório da Anistia não é um relatório sobre direitos humanos, é um julgamento ao estilo soviético. Não há transparência, não há responsabilidade, não sabemos quem são os juízes. Quem são os membros da equipe de investigação? Eles escondem suas identidades", afirmou.

Palmor também questionou os conhecimentos da equipe de investigação da Anistia, a identidade das testemunhas e se elas trabalham para o Hamas.

Disparos de escolas

O relatório da Anistia afirma que não encontrou provas de que militantes palestinos obrigaram civis a ficarem em prédios usados para fins militares, contradizendo as alegações israelenses de que o Hamas usava "escudos humanos.

No entanto, a Anistia afirma que o Hamas e outros grupos militantes palestinos colocaram a vida de civis em risco ao disparar foguetes de áreas residenciais e guardar armas nestes bairros. O relatório afirma que moradores destas áreas contaram que militantes do Hamas dispararam um foguete do pátio de uma escola do governo.

Treze israelenses foram mortos, incluindo três civis, durante a ofensiva. Israel alegava que a operação visava paralisar os ataques com foguetes contra alvos israelenses, através da fronteira.

Na Faixa de Gaza, Fawzi Barhoum, um porta-voz do Hamas, afirmou que o relatório não é profissional.

"Este relatório não é justo nem equilibrado e nós rejeitamos todas as acusações ao Hamas listadas nele. Lembramos e reafirmamos que este relatório não profissional foi publicado sem a consulta a qualquer um dos líderes ou autoridades do Hamas. O relatório iguala vítimas e carrascos e nega o direito de nosso povo de resistir à ocupação, que é incompatível com a lei internacional que garante o direito de um povo (em território) ocupado à autodefesa."

Um dos líderes do Hamas, Ismail Haniyeh, disse que "esta guerra selvagem teve apenas um lado e todas as ferramentas de destruição e assassinato foram usadas. Os restos da destruição ainda são provas do crime contra a Faixa de Gaza e acreditamos que os líderes da ocupação israelense devem ser entregues aos tribunais internacionais".

sábado, 2 de maio de 2009

Lançamento do livro "Família de negros"

A Editora E-papers convida a todos para o lançamento do livro


de Sergio Mauricio Costa da Silva Pinto

no próximo dia 9 de maio de 2009, sábado, a partir das 10:00.

Livraria LDM
Rua Direita da Piedade, 20
Piedade - Salvador - BA

Mais informações sobre a obra em
http://www.e-papers.com.br/

Editora E-papers
http://www.e-papers.com.br/
atendimento@e-papers.com.br
telefone (21) 2273-0138 e 2504-5618
fax (21) 2502-6612

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Células-tronco embrionárias - o primeiro estudo clínico em humanos

Terapia baseada em células-tronco embrionárias humanas será testada nos EUA em pacientes com lesões na medula espinhal
Pesquisa FAPESP

Fonte:
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Numa decisão histórica, uma empresa da Califórnia, a Geron Corporation, recebeu autorização do Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula o uso de remédios e a venda de alimentos nos Estados Unidos, para testar em pessoas uma terapia baseada no emprego de células-tronco embrionárias humanas. A companhia vai injetar células-tronco em até dez pacientes com paralisia devido a graves lesões na medula espinhal e analisar a segurança e os possíveis efeitos do procedimento. É a primeira vez em todo o mundo que uma terapia com esse tipo de célula recebe sinal verde para ser experimentada em humanos.

"A decisão marca o início do que é potencialmente um novo capítulo na terapêutica médica, que vai além das pílulas e alcança um novo nível de cura: a restauração da função de um órgão ou tecido por meio da injeção de células substitutas saudáveis", disse hoje (23/01), em comunicado à imprensa, Thomas B. Okarma, presidente da Geron. A companhia pretende injetar as células no local em que houve a lesão na medula espinhal em pacientes que perderam os movimentos do tórax para baixo.

A candidata a terapia será administrada aos participantes do estudo clínico entre 7 e 14 dias depois que as pessoas sofreram a lesão. Há evidências de que o possível tratamento tem mais chance de dar algum resultado em pacientes recém-acidentados. Os pesquisadores, por ora, não têm nenhuma ilusão de devolver todos os movimentos aos pacientes com a possível terapia. Eles querem ver se o procedimento é seguro e se é capaz de proporcionar algum benefício aos participantes do estudo.

As células-tronco embrionárias têm a capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula e tecido do corpo humano. Mas não se sabe ao certo que reações elas podem provocar quando introduzidas num organismo e também se é possível controlar seu processo de transformação em células mais específicas. Um dos riscos sempre mencionados é o de que a introdução das células-tronco embrionárias pode provocar certos tipos de tumores nas pessoas. Além disso, grupos religiosos e até mesmo alguns cientistas questionam se é ético usar embriões humanos descartados para obter esse tipo de célula, que parece ter um enorme potencial terapêutico.

Como deu o aval para que os primeiros testes clínicos em humanos sejam realizados, o FDA entendeu que hoje os possíveis benefícios desse novo tipo de terapia são maiores do que os riscos e as questões morais. A aprovação do estudo apenas três dias depois que assumiu o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, um defensor da pesquisa científica e tecnológica, foi interpretada como coincidência pelos executivos da Geron. Mas houve quem achasse que o sinal verde para o estudo já reflete a posição do novo mandatário da Casa Branca. Desde 2001, estão em vigor nos Estados Unidos restrições à pesquisa com células-tronco embrionárias adotadas pelo ex-presidente George W. Bush.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Estado nazifascista de Israel

Raul Longo

Albert Einstein e Hannah Arendt posicionaram-se indignada e publicamente contra o nazi-fascismo israelense (leia o manifesto ao final deste texto).

O presidente de Israel, Shimon Peres, prêmio Nobel da Paz em 1994, justificou-se ao mundo pela desproporção e selvageria do massacre do gueto de Gaza, alegando que a chacina de civis e crianças deve-se ao fato de serem usados como escudo humano pelo Hamas.

No mesmo dia, mais uma notícia do genocídio: duas escolas da ONU foram bombardeadas, esquartejando e matando dezenas de crianças.

A ONU usaria crianças de escudo? Escudaria o Hamas?

Segundo as velhas avós, as mentiras de Shimon Peres é que têm pernas curtas.

A ONU - Organização das Nações Unidas foi criada em 1945, logo ao final da II Guerra para substituir a Liga das Nações que resultou da I Guerra Mundial, em 1919. Os Estados Unidos não assinou o Tratado de Versalhes que criou a Liga das Nações e tampouco aquela entidade conseguiu cumprir com a proposta de evitar agressões bélicas. Daí, criou-se a ONU para o cumprimento da mesma promessa.

Em 1947, o brasileiro Oswaldo Aranha preside a Assembléia da ONU que cria o Estado de Israel dentro do Território Palestino, então, e desde a queda do Império Turco-Otomano, sob domínio do Império Britânico.

Em 1948, um grupo dos mais significativos intelectuais judeus alertam ao mundo, pelo New York Times, a ameaça de um partido nazi-sionista com nefastas projeções futuras. Esse documento está reproduzido aí abaixo, e foi enviado pelo companheiro Fernando Rosas Freire.

Nazi é a abreviatura de nazista, do alemão Nationalsozialismus, ditadura que governou a Alemanha entre 1933-1945 e, aliando-se a ditadura fascista da Itália e o Império Japonês, pretendeu dominar o mundo invadindo diversos países da Europa, África, Ásia e Polinésia.

A ditadura nazista foi apoiada e financiada pelo capitalismo internacional, notadamente o norte-americano, como documenta o jornalista Michel Moore contando em seu livro Uma nação de idiotas, que o bisavô e o avô de Bush enviavam dólares à Alemanha, mesmo depois de os Estados Unidos terem entrado na guerra contra o Terceiro Reich.

Michel Moore nunca foi desmentido. Michel Moore não tem pernas curtas.

Se é difícil acreditar que os estadunidenses tenham financiado o nazismo, mais difícil ainda é acreditar que judeus possam ser nazistas, afinal milhares de judeus foram massacrados exatamente da forma que os sionistas hoje estão massacrando os palestinos em Gaza. E foram humilhados e violentados pelos nazistas, exatamente como os nazi-sionistas humilham e violentam os palestinos desde a criação do Estado de Israel, conforme relatado aí nesta carta dos intelectuais judeus ao New York Times.

Mas como acreditar que judeus possam ser nazistas?

Primeiro é preciso lembrar que entre os judeus vítimas do genocídio nazista havia os de classe média, muitos socialistas, e a maioria dos 6 milhões da vítimas das câmaras de gás era tão pobre quanto os milhares de ciganos também exterminados, embora sempre omitidos.

No entanto, não há notícia de nenhum banqueiro, grande industrial, proprietário de cadeias internacionais de lojas especializadas em artigos finos, comerciantes de jóias, mercador de importações e exportações; ainda que entre os maiores e mais ricos burgueses da Europa se destacassem muitos judeus.

Esses são os judeus aos quais se refere o documento abaixo. São esses os que hoje se associam aos grandes empreendimentos petroleiros, inclusive aos sheiks dos mais ricos países árabes. São os que intermedeiam e negociam interesses do hemisfério norte com seus ricos primos sauditas, prosseguindo uma tradição que se iniciou já no início dos 8 longos séculos em que os muçulmanos se estabeleceram na península ibérica.

Atrás dos então chamados mouros foram os antigos judeus que, abandonando a Palestina, preferiam comercializar com seus primos semitas. Uma verdade histórica que desmente outra mentira de perna curta: a de que judeus, mulçumanos e cristãos sempre se engalfinharam. É só ler os contos das Mil e uma noites para se perceber que conviveram tolerantemente por muitos séculos. O anti-judaísmo é um preconceito religioso de cristãos europeus, que não teve qualquer repercussão entre muçulmanos e cristãos árabes antes da criação do Estado Nazi-Sionista de Israel.

Omite-se, inclusive, que 40% da população Palestina é cristã. Mais uma das pernas curtas dos mentirosos que acusam aos palestinos de atacarem Israel por fundamentalismo islâmico.

Hebreus, árabes, assírios, aramaicos e fenícios são todos o mesmo povo semita. Isso está em qualquer dicionário, encurtando as pernas das mentiras que acusam preconceitos étnicos. Etnia e religião são mentiras que escondem os interesses envolvidos no embate de sionistas e árabes, como se escondeu os verdadeiros interesses dos que diziam financiar Hitler para conter Stálin, ou apoiar Sadam Hussein para conter o Irã, e armar os Talibãs contra a União Soviética. Pernas curtas, tiveram de guerrear contra Hitler, Sadam e Talibãs.

Mas se Hitler foi derrotado na Segunda Guerra mundial, muitos foram os indícios da continuidade do nazismo, já apontados neste documento enviado por Fernando Freire. Um deles está no impressionante declínio da presença judaica na Europa. Por 12 séculos esses semitas contribuíram com as mais altas expressões da cultura européia: música, teatro, literatura, artes plásticas, filosofia, ciências. Em cinco décadas a grande maioria foi enviada para estabelecer o domínio da entrada da grande reserva petrolífera do mundo. Spinozas, Freuds, Marxs, Einstens, transformados em covardes Golias a revidar com obuses e míssil as pedras de pequenos Davis sem estrelas nem direito ao quarto crescente de suas preferências.

O Estado de Israel, criado pela ONU em 1947, foi uma mentira de perna tão curta que já no ano seguinte foi desmentido pelos próprios judeus que assinaram o documento aí abaixo, mas ainda hoje muitos jovens israelenses se recusam a se transformar em genocidas e, pela internet, estão pedindo socorro ao mundo por maus tratos e humilhações a que vêm sendo submetidos pelos nazistas de seu país.

Resta saber, qual será o comprimento das pernas da ONU, agora que o estado sionista assume declaradamente todo horror que o mundo execrou nos nazistas. Qual será a reação da ONU ao ataque as suas próprias instalações e delegações de ajuda humanitária. Nem mesmo Adolf Hitler ousou ser tão descomprometido e ameaçador à manutenção da paz mundial!

Já não se trata apenas do absoluto desrespeito ao mais importante documento promulgado por aquela entidade, a Declaração dos Direitos Humanos, como vêm fazendo desde a instalação do estado nazista, conforme acusam os intelectuais judeus abaixo assinados. Trata-se, agora, da promoção de mais um holocausto. O mesmo holocausto que talvez se desconhecesse antes da invasão dos países ocupados e da Alemanha dos anos 40 do século passado, mas hoje está estampado nas telas dos aparelhos de TV e monitores de todo o mundo.

Trata-se de um crime contra a humanidade ao qual a anuência não justifica sequer a instituição de uma nação, quanto mais a de uma Organização das Nações Unidas!

Utiliza-se contra a indefesa população palestina emparedada pelos muros da ignomínia nazi-sionista, tudo o que todos os tratados e tribunais internacionais sempre condenaram: bombas de fragmentação, armas químicas, urânio empobrecido contra mulheres e crianças. Esquartejamentos em massa.

Em 12 dias, ceifou-se mais de 700 vidas! Nessa progressão, em pouco irão ultrapassar Auschwitz, Treblinka, gueto de Varsóvia e demais campos de extermínio dos anos 40. Gaza se faz nova Lídice!(1)

A omissão da ONU e do mundo sobre este genocídio, invalida o julgamento de Nuremberg. Invalida a condenação dos massacres de Ruanda. Inutiliza o julgamento dos exterminadores da Bósnia.

A omissão de sanções severas e inequívocas contra o Estado de Israel por parte de qual instituição for, seja a ONU, o Vaticano, o governo francês, inglês, alemão, os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Brasil, a Argentina ou qualquer outro país, inclusive e principalmente as instituições que representem a consagrada intelectualidade israelense, e até mesmo grandes instituições privadas de todo o mundo, reduzirá cada um a uma grande e fragorosa mentira. Promoverá a Al Qaeda, o Talibã, os grupos terroristas de todo o mundo, em últimas alternativas para algum restabelecimento de civilização.

Que os meios internacionais de comunicação façam uma cobertura tendenciosa desse escandaloso primeiro genocídio bélico do século XXI (embora pela África prossiga o iniciado há muitos séculos atrás), é possível compreender sabendo-se que todos detém dívidas e interesses relacionados ao nazi-sionismo, quando não são majoritariamente de propriedade desses mesmos nazistas.

Mas que governos e instituições minimamente responsáveis continuem se mantendo surdos e omissos a consumação do que já foram publicamente alertados em 1948 pela representatividade dos nomes que assinaram a advertência reproduzida adiante, é aterrador ao nosso futuro como humanidade.

(1) Lídice - Em 1942 um oficial da SS foi emboscado e morto pela resistência da Tchecoslováquia ocupada. Em represália Hitler ordenou a destruição da vila de Lídice e toda sua população (340) foi exterminada: homens, mulheres e crianças. Mas a vingança nazista não se resumiu a Lídice e 1.500 vidas foram exterminadas em demais cidades daquele país. Quantas vidas o mundo aguarda que sacie a vingança nazi-sionista pelas paredes derrubadas por foguetes da resistência da Palestina ocupada?

Carta de intelectuais judeus ao New York Times, incluindo Albert Einstein, Hannah Arendt e Sidney Hook, dezembro de 1948.

Aos Editores do New York Times:

Entre os fenômenos políticos perturbadores de nossos tempos está a emergência no recém criado Estado de Israel do "Partido da Liberdade" (Tenuat Haherut), um partido político estreitamente assemelhado em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos Nazista e Fascista. Ele foi formado a partir de membros e seguidores do antigo Irgun Zvai Leumi, uma organização terrorista, facção direitista e organização chauvinista na Palestina.

A visita atual de Menachem Begin, líder deste partido, aos Estados Unidos é, obviamente, calculada no sentido de dar a impressão de apoio americano ao seu partido, por ocasião do advento das eleições israelitas e para cimentar laços políticos com os elementos sionistas conservadores dos Estados Unidos. Vários americanos de reputação nacional têm emprestado seu nome para dar boas vindas a sua visita. É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo no mundo, se corretamente informados sobre a história política e perspectivas de Mr. Begin, possam acrescentar seus nomes e apoio ao movimento que ele representa.

Embora esse irreparável perigo ocorra pela forma de contribuições financeiras, manifestações públicas a favor de Begin ou pela criação na Palestina da impressão de que um grande segmento da América apóia os elementos fascistas em Israel, o público americano deve ser informado sobre a história e os objetivos de Mr. Begin e do seu movimento.

As promessas públicas do Partido de Begin não correspondem, quaisquer que sejam, ao seu caráter real. Hoje falam de liberdade, democracia e antiimperialismo, enquanto até recentemente pregavam abertamente a doutrina do Estado Fascista. É em suas ações que o partido terrorista denuncia o seu caráter real; de suas ações do passado podemos julgar o que dele pode ser esperado fazer no futuro.

Ataque sobre a Vila Árabe.

Um exemplo chocante foi seu comportamento na vila árabe de Deir Yassin. Esta vila, distante das principais estradas e circundada por terras judaicas, não tomou nenhuma parte na guerra e chegou a contrariar o lado árabe que queria usar a vila como sua base. Em 9 de abril (The New York Times) bandos terroristas atacaram esta vila pacifista, que não era um objetivo militar na luta, matando a maioria de seus habitantes – 240 homens, mulheres e crianças - e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como cativos através das ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com aquela ação e a Agência Judaica mandou um telegrama de pesar ao Rei Abdulah da Trans-Jordânia. Contudo, os terroristas, longe de se envergonharem de seu ato, ficaram orgulhosos com aquele massacre, divulgado amplamente e convidaram os correspondentes estrangeiros no país para testemunharem os cadáveres amontoados e a devastação geral em Deir Yassin.

O acontecimento de Deir Yassin exemplifica o caráter e as ações do Partido da Liberdade.

No interior da comunidade judaica eles têm propugnado uma mistura de ultra nacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Como outros partidos fascistas eles têm sido usados para esmagar as greves e têm-se dedicado à destruição de sindicatos livres. Em seu lugar eles têm proposto sindicatos corporativistas no modelo fascista italiano. Durante os últimos anos da esporádica violência antibritânica, os grupos IZL e Stern inauguraram um reino de terror na comunidade Judaica Palestina. Professores foram espancados por se pronunciarem contra eles, adultos foram alvejados por não deixarem suas crianças juntar-se a eles. Por métodos de gangsterismo, açoites, quebra-vidraç as e roubos em larga escala, os terroristas intimidavam a população e exigia-lhe pesado tributo. Os membros do Partido da Liberdade não têm nenhuma participação nos logros construtivos na Palestina. Eles não reivindicam nenhuma terra, nenhuma construção dehabitações e apenas depreciam a atividade defensiva judaica. Seus esforços de imigração muito propagandeado foram diminutos e devotados principalmente para atraírem compatriotas fascistas.

Discrepâncias observadas.

As discrepâncias entre os bravos clamores que estão sendo feitos agora por Begin e seu partido e a história de sua performance no passado da Palestina não portam a marca de um partido qualquer. Esta é o selo de um partido fascista, pelo qual o terrorismo e o embuste são os meios e o "Estado Regente" é o objetivo.

À luz das considerações anteriores, é imperativo que a verdade sobre Mr. Begin e seu movimento seja tornado conhecido neste país. É de toda maneira trágico que a liderança maior do sionismo americano tenha se recusado a participar da campanha contra os esforços de Begin, ou mesmo de expor aos seus constituintes os perigos para Israel do apoio a Begin. Os abaixo assinados, portanto, através deste meio de publicidade apresentam alguns fatos salientes que dizem respeito a Begin e seu Partido; e recomendam a todos os interessados a não apoiarem esta última manifestação do fascismo.

Nova Iorque, 2 de dezembro de 1948.

Assinaturas
Isidore Abramowitz, Hannah Arendt, Abraham Brick, Rabbi Jessurun Cardozo, Albert Eistein, Herman Eisen, M.D., Hayim Fineman, M. Gallen, M.D., HH. Harris, Zelig S. Harris, Sidney Hook, Fred Karush, Bruria Kaufman, Irma L. Lindheim, Nachman Maisel, Seymour Melmam, Myer D. Mendelson, M.D., Harry M. Oslinsky, Samuel Pitlick, Friitz Rohrlich, Louis P. Rocker, Ruth Sagis, Itzhak Sankowsky, I.J. Shoenberg, Samuel Shuman, M. Singer, Irma Wolfe, Stefan Wolfe.

domingo, 26 de outubro de 2008

Bezerra – O homem e o filme

Nícia Cunha
Empresária do setor de serviços; delegada da CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana) em Cuiabá, MT.

Fonte:
http://www.cepanet.org/

O filme Bezerra de Menezes - o diário de um espírito é lento, escuro, pesado, consiste em doutrinação enfadonha. Inicia-se com um trecho do livro Brasil: coração do mundo, pátria do evangelho do espírito Humberto de Campos, reforçando o mito judaico cristão da "terra prometida, do povo escolhido". Pretensão absurda, mau julgamento de Deus, que seria assim, injusto e parcial nos seus desígnios, em relação a outras nações e povos, até mais moralizados que nós, os brasileiros.

Tem um teor falso, desde os pequenos detalhes, tais como as barbas e os bigodes de todos os personagens, especialmente os do ator Caio Blat, até o mais importante: a infidelidade conceitual ao espiritismo kardequiano, merecendo mesmo a classificação de "falsidade ideológica". Retrata apenas, e neste caso muito bem, a religião espírita implantada no Brasil.

É igualmente falso em termos de apresentação da personalidade do biografado, pois pelo que consta, Bezerra não era propriamente um "manso". Tinha suas idiossincrasias, absorvidas por uma caracterização apática, passiva, que não era a sua marca.

Não é falso ao mostrar tratamentos médicos e distribuição de remédios manipulados in loco, feitos sem controles sanitários. Prática, felizmente, em declínio no Brasil, por se tratar de exercício ilegal da medicina, embora ainda em uso sob a forma de intervenções espirituais. O ator Carlos Verezza, que personaliza o biografado, em entrevista dada ao Jô Soares, em seu programa da TV Globo, afirmou ter se submetido a uma cirurgia espiritual no Lar de Frei Luís, do Rio de Janeiro, com bons resultados.

Não é falso na caracterização de uma sessão espírita: dirigentes sisudos com falas e atitudes pastorais, trocando entre si olhares assustados, quando interpelados sobre questões doutrinárias que julgam intocáveis; ambiente místico, platéia silenciosa e não participativa, mesa com toalha branca, flores e copos d'água para o que se convencionou chamar de "fluidificação". Práticas, todas elas, não procedentes da codificação, constituindo-se em sistemas e modelos introduzidos pelo espiritismo brasileiro.

Os espíritas sempre dizem que são contra a santificação de seus vultos. Mas o filme e os depoimentos pessoais ali inseridos são pura demonstração de reverência idólatra. Seriam perfeitamente dispensáveis, pois foram ali colocados unicamente para fazer proselitismo. Apenas explicitam fanatismo, além de quebrar a linha estética do filme e o ritmo narrativo, até então harmônicos naquilo que seus diretores se propuseram a fazer.

Mesmo discordando de Bezerra em vários pontos, eu o admiro e respeito, especialmente por sua inegável bondade, pela fidelidade à sua concepção da doutrina espírita, pela coragem de haver assumido um posicionamento público que, àquela época, só lhe trazia problemas. Entretanto, acho que Bezerra fez mais mal do que bem à doutrina, em função do desvirtuamento conceitual a que a submeteu. No filme isso fica mais do que evidente na leitura feita por seus irmãos da carta que ele lhes escreveu, contestando-os quanto à sua exclusão do seio da família. Nela dá testemunho de próprio punho de sua fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, em um Jesus divinizado, com missão de salvador dos homens. E pelos teores das mensagens mediúnicas que lhe são atribuídas ainda hoje continua com as mesmas crenças.

São conceitos que não constam de nenhum livro de Kardec, pois ele somente endossou o ensino moral de Jesus, desconsiderando a história canônica com seus milagres, os atributos de filiação divina e santidade absoluta.

Mesmo assim, é necessário contextualizar os posicionamentos de Bezerra. Seria demais, querer que alguém nascido no século XIX (29/08/1831) em pequena cidade do interior do Ceará, em família tradicional e católica, não tivesse atavismos e entendimentos próprios de um ambiente cristão, conforme a definição formal que é a de quem crê na Santíssima Trindade, na salvação através de Jesus, na graça do batismo para livrar-se do pecado original etc.

Afinal, aceitando o espiritismo roustainguista, Bezerra assimilou o que sua mente racional aprovou, abandonando apenas os teores mais absurdos da fé que antes professava. Sentiu-se, portanto, extremamente confortável com o neocatolicismo roustainguista. Mas, paradoxalmente, passou a aceitar as esquisitices fantasiosas de Roustaing. Deu força, portanto, à versão mística do espiritismo da qual foi o principal introdutor, sedimentando-a na FEB - e esta, nas entidades adesas -, implantando a feição religiosa neo-católica que até hoje domina o movimento espírita brasileiro e da qual resultam os fundamentalismos vigentes na maior parte de suas instituições.

Assim, minhas discordâncias de Roustaing e Bezerra não são apenas quanto às questões do corpo fluídico de Jesus e do criptógamo carnudo. Afinal, estes temas ficaram praticamente esquecidos, pelo desconhecimento da obra roustainguista. Minha ressalva é quanto ao teor místico e religioso deles oriundo, que impregnou todo o espiritismo pátrio. Neste sentido, há espíritas que são roustainguistas sem o saber: imaginam que a questão se resume nos pontos polêmicos acima mencionados, esquecendo-se de suas próprias atitudes, marcadamente religiosas. Não se dão conta de que o endeusamento de Jesus, as idéias salvacionistas, o mariolatrismo, a noção distorcida da lei de causa e efeito, o ufanismo pátrio, a pretensão orgulhosa de superioridade do ensinamento espírita, as interpretações católicas das dimensões espirituais, os posicionamentos anti-científicos que vigoram no movimento espírita derivam dos conceitos introduzidos por Roustaing e endossados por Bezerra.

Creio que seu erro foi - e o do espírita brasileiro em geral ainda é - a cristalização da doutrina espírita, tornando-a dogmática desde que transformada em religião. Ambos abandonaram os aspectos filosóficos e científicos defendidos por Kardec, que elegeu a MORALIDADE e não a RELIGIÃO como característica da doutrina, recomendando inclusive, que fosse progressiva e dinamicamente atualizada segundo parâmetros científicos.

Finalizando, acho que a película não fez jus nem ao que Bezerra teve de bom. Apesar dos esforços e das boas intenções, um desperdício de oportunidade e um desserviço à OBRA KARDEQUIANA, tão desfigurada por divulgadores que não a compreenderam.

Penso que o filme só vai agradar mesmo aos roustainguistas, conscientes ou inconscientes dessa condição.

domingo, 15 de junho de 2008

Liberdade para avançar

Cadeirantes celebram liberação das pesquisas em frente ao STF
© Wilson Dias / ABRArtigo publicado na Revista Pesquisa FAPESP, 148, junho 2008, p.28-9.

Decisão histórica do STF dá aval à busca da primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias

Foi o mais importante julgamento em mais de cem anos de história do Supremo Tribunal Federal (STF), na avaliação de Celso de Mello, um de seus ministros. Na tarde do dia 29 de maio, os 11 juízes da Corte autorizaram o prosseguimento das pesquisas com células-tronco extraídas de embriões humanos no Brasil ao rejeitarem a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) proposta pelo ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles contra um dos artigos da Lei de Biossegurança (nº 11.105). Seis dos votos declararam a improcedência da Adin. Os outros cinco ministros, embora não tenham considerado inconstitucional a lei, fizeram ressalvas que, em maior ou menor grau, poderiam impor limites à atividade científica. Mas foram votos vencidos.

Com a decisão histórica, o Supremo deu aval para a retomada das pesquisas brasileiras com células-tronco embrionárias, que permaneciam em banho-maria devido à incerteza causada pela Adin. “Esse julgamento tirou uma espada de nossas cabeças”, afirma a geneticista Lygia da Veiga Pereira, que espera obter em seu laboratório na Universidade de São Paulo (USP) a primeira linhagem brasileira de um tipo especial de célula. Capazes de originar diferentes tecidos do corpo –como pele, ossos ou neurônios–, as células-tronco embrionárias despertam há tempos o interesse de pesquisadores e da população no mundo todo por representarem uma esperança de tratamento para problemas graves contra os quais medicamentos não surtem o efeito desejado. A produção de uma linhagem nacional de células-tronco embrionárias humanas é um passo importante para a ciência brasileira. “Ela deve garantir autonomia ao país, que pode deixar de depender da importação de linhagens produzidas no exterior”, diz Lygia, que trabalha nessa missão desde 2005 com Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Segui em frente acreditando no bom senso do STF”, conta Lygia.

Não é uma tarefa simples. Desenvolver uma linhagem significa extrair células de um embrião em estágio inicial de desenvolvimento e fazê-las se reproduzir em laboratório sem que percam sua característica mais interessante: a pluripotência, capacidade de originar outras células do corpo. Usando uma técnica inovadora –em que se cultivam células de embriões humanos sobre fibroblastos humanos–, Lygia e Rehen já conseguiram gerar uma linhagem brasileira, mas os resultados ainda não foram plenamente satisfatórios. Agora pretendem repetir o experimento adotando o método clássico usado no mundo todo, em que essas células são cultivadas sobre fibroblastos de camundongos. “Elas serão adequadas para uso em pesquisa, mas não para tratamentos”, explica Lygia, que pretende repassar a técnica para outros laboratórios do país tão logo ela seja dominada.

“Esse é um aprendizado novo”, diz o médico Antonio Carlos Campos de Carvalho, pesquisador do Instituto Nacional de Cardiologia e da UFRJ, onde também trabalha com linhagens de células-tronco embrionárias humanas importadas. Carvalho e outros quatro grupos da UFRJ tentam desde 2005 aumentar a obtenção de determinados tipos de células maduras, que poderiam ser usadas no reparo de algum tecido danificado. “Com a decisão do STF, ganhamos tranqüilidade para colocar estudantes de mestrado e doutorado para trabalhar nesses projetos”, afirma Carvalho.

A geneticista Mayana Zatz, líder da mobilização em favor da liberação das pesquisas, diz que o potencial terapêutico das células-tronco embrionárias é imenso. “Mas é preciso ter paciência: não se sabe quando e nem quais doenças poderão realmente ser tratadas”, adverte. “Os pesquisadores já estavam trabalhando com células-tronco embrionárias, tanto importadas como brasileiras – porque não era proibido. Mas ninguém estava investindo muito nisso porque não se sabia se elas seriam interrompidas. Agora os pesquisadores vão se lançar nesse caminho: submeter projetos, conseguir financiamento, fazer pesquisa”, diz Mayana. A pesquisadora ressaltou que o aval do STF não significará uma redução da pesquisa com as células-tronco adultas, que podem ser extraídas de vários órgãos, mas não têm a versatilidade das embrionárias. “A pesquisa com células adultas trará resultados a curto prazo, mas as em­brionárias permitirão tratar uma gama mais ampla de doenças”, afirmou.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, lembrou que as pesquisas com células-tronco apoiadas pelo governo federal desde 2004 poderão ter os primeiros resultados em 2009. Até agora esses projetos receberam cerca de R$ 24 milhões. “É certo que, para os primeiros resultados concretos, temos uma longa estrada pela frente. Mas é preciso destacar que essas pesquisas buscam trazer respostas para agravos como as lesões raquimedulares, diabetes e doenças genéticas”, explicou o ministro.

Clonagem proibida
As pesquisas com células-tronco embrionárias estão previstas na Lei Nacional de Biossegurança, sancionada em março de 2005 (ver reportagem de capa de Pesquisa FAPESP nº 110). O uso de embriões foi liberado em condições restritas: só é permitido o uso de células-tronco de embriões excedentes dos processos de fertilização in vitro –mesmo assim caso se mostrem inviáveis para reprodução ou se estiverem congelados há pelo menos três anos. Ficou proibida a clonagem de embriões que, na teoria, poderia gerar células e tecidos feitos sob medida para tratar um indivíduo.

Mas logo que a lei entrou em vigor surgiu o impasse jurídico. Em maio de 2005 o então procurador-geral da Re­pública, Cláudio Fonteles, propôs a Adin ao STF. Ele contestou o artigo 5º da lei, justamente o que dispõe sobre a utilização de embriões armazenados em clínicas de reprodução (ver Pesquisa FAPESP nº 113). Na avaliação de Fonteles, tais dispositivos chocavam-se com a proteção que a Constituição confere à vida humana. A ação suscitou a primeira audiência pública feita na história do Supremo (ver Pesquisa FAPESP nº 135). Por iniciativa do ministro relator, Carlos Ayres Britto, o STF reuniu 22 cientistas em Brasília para debater a seguinte questão: quando começa a vida? O julgamento só teria início no dia 5 de março, com a leitura do voto de Ayres Britto, que refutou a tese de Fonteles. “Deixar de contribuir para devolver pessoas à plenitude da vida não soaria como desumana omissão de socorro?”, indagou Britto. A então presidente da corte, a ministra Ellen Gracie, acompanhou o voto do relator, mas a sessão foi interrompida por um pedido de vista do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, e só retomada em 28 de maio.

Direito, que pertence à União dos Ju­ristas Católicos do Rio de Janeiro, pro­pôs em seu voto que a extração de células-tronco estaria condicionada à não destruição do embrião congelado. Além dele, os ministros Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Gilmar Mendes e Cezar Peluso fizeram ressalvas que previam limites à pesquisa. Mas prevaleceu a tese do relator, apoiada também pelos ministros Marco Aurélio Mello, Ellen Gracie, Celso de Mello, Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa, que votaram pela liberação das pesquisas nos termos da Lei de Biossegurança, sem restrições.

sábado, 31 de maio de 2008

Um espiritismo ovino

O médium Medrado, fundador da Cidade da Luz, fez publicar um artigo no jornal A Tarde, de Salvador, BA, no dia 28 de maio, em que argumenta sobre as tantas lutas judiciais em que se mete, tal qual um cavaleiro andante em busca de aventuras e fantasias.

Não quero nessa mensagem entrar no mérito de seus embates pirotécnicos, mas sim comentar o eixo de sua argumentação. Seguem abaixo alguns trechos daquilo que ele considera "bom senso" (ave Descartes!):

"[...]
"Então, para que não pairem dúvidas, nem distorçam, guardo o respeito a você e explico humildemente:
"1 - Sou um pastor, e, como tal, você crendo ou não no que prego, gostando ou não do meu jeito, quero também pregar à minha comunidade minhas verdades, quero levar o que julgo certo a todos;
"[...]
"Agora me responda, ouvindo o bom-senso
(sic), a razão:
"1 - Não foi justo o meu pleito de pastor, na minha fé, na minha religião?
"2 - Não tenho o direito de buscar para os meus fiéis o que o seu pastor busca para você?
"3 - Não tenho o direito de reclamar, como pai que me sinto, do alimento espiritual para os meus filhos?
"Foi isto o que eu fiz.
"[...]"


Se você é espírita, não morra de rir. Contenha-se, por favor. Afinal, esse é o primeiro pastor espírita assumido! Quem se habilita a ser seu filho... ou ovelha?!

O ridículo é quase insuperável. Confesso que poucas vezes na minha caminhada espírita vi, ouvi ou li tamanha descaracterização das propostas espíritas. Ao reler Kardec nalguns artigos da sua Revista espírita ou em trechos de sua Viagem espírita em 1862, fico a pensar se sou tão toscamente obtuso a ponto de nada (absolutamente nada!) compreender daquilo que foi originalmente proposto.

Se você é espírita, imagine Kardec falando em ser pastor e ter fiéis seguidores, ou mesmo sentindo-se "pai" espiritual de seja lá quem for. Nada é mais disforme, mais incoerente e mais insólito do que essa patuscada religiosa, que certamente não encontra eco algum no bojo das propostas espíritas kardecistas.

É o sincrético movimento espírita religioso, que se imiscui no grande filão dum mercado religioso já tão bem explorado por pastores de diversas denominações. Mais uma, menos uma... nenhuma diferença.

Olha no que deu o espiritismo...

Confesso minha extrema dificuldade em assumir uma identidade espírita diante de exemplos tão eloquentemente desconexos e pouco elaborados.

sábado, 24 de maio de 2008

Indignado e envergonhado

Vergonha. É a única palavra que me vem em mente sobre este caso tão absurdo. "Isto é uma vergonha", diria o jornalista Boris Casoy. Sinto-me duplamente envergonhado: por ser baiano e por ser espírita (esse último adjetivo cada vez menos adequado...).

O médium Medrado, aquele que lutou na justiça por casamentos e sacerdócio, agora protagoniza outra infeliz batalha e recorre ao instrumento dos covardes: a censura.

O mais interessante é que Kardec rebateu aos seus críticos, foi censurado como no episódio dos seus livros queimados em Barcelona, mas jamais usou desse instrumento contra seus debatedores. A livre manifestação das idéias é valor inestimável e não pode ser conspurcado por um médium à la Dom Quixote que, ao invés de lutar simplesmente expondo suas idéias, mesmo que absurdas, prefere intimidar usando a falácia dos recursos jurídicos.

Não concordo em nada com as idéias do tal padre no seu livro, muito menos (ou talvez menos ainda) com as idéias desse estranho exemplar "espírita" que realiza casamentos, mas certamente reconheço seus direitos inalienáveis de dizer e publicar o que bem entenderem.

É uma pena, ou melhor, uma vergonha, que um exemplo desse naipe esteja associado ao nome espiritismo.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Vergonha espírita!


O médium José Medrado apronta mais uma das suas, envergonhando todo o movimento espírita baiano: entrou com ação cautelar na Justiça pedindo a censura (sim, creiam: a censura!) do livro do padre católico Jonas Abib, intitulado Sim, sim! Não, não! Reflexões de cura e libertação.

Diante do inusitado e vergonhoso episódio, cabe aos espíritas os mais sinceros pedidos de desculpas ao padre, que teve sua opinião censurada pela atuação do promotor Almiro Sena, o mesmo que quis mudar a história do Brasil apresentada na novela Sinhá Moça da Rede Globo.

Senhor Jonas Abib, em meu nome, como espírita, peço desculpas pelo devaneio persecutório dum estranho líder religioso, que se diz espírita, mas em nada se alinha às propostas de tolerância e compreensão apresentadas pelo espiritismo. Kardec sofreu perseguição intensa dos movimentos religiosos e filosóficos de sua época, e os espíritas aprenderam, então, o valoroso respeito à liberdade de opinião, mesmo que frontalmente contrárias às propostas espíritas.

E vamos queimar livros

Publicado originalmente no blog Censura não! em 17/05/2008, por rodveleda.http://xocensura.wordpress.com/2008/05/

A queima de livros voltou na Bahia! O Folha de S.Paulo de hoje [17/05] traz uma matéria reportando uma decisão da Justiça Estadual de recolher todos os exemplares do livro Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de cura e libertação, escrito pelo monsenhor Jonas Abib, pois o voluntarioso Ministério Público da Bahia acredita que Abib teria cometido o crime de “prática e incitação de discriminação ou preconceito religioso”. Para o promotor Almiro Sena Soares Filho, o mesmo que processou a Rede Globo por mostrar escravos apanhando na novela Sinhá Moça (algo que não acontecia, de acordo com a Nova e Revisada História do Brasil de Almiro de Sena Soares Fo.), Abib faria:

"Afirmações inverídicas e preconceituosas à religião espírita e às religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, além de flagrante incitação à destruição e ao desrespeito aos seus objetos de culto".

De acordo com a promotoria, já teriam sido vendidas 400 mil cópias do livro.

Não é a primeira vez que uma crítica a religiões afro-brasileiras sofre censura na Bahia. O livro Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? de Edir Macedo também foi censurado pela Polícia do Pensamento, filial Ministério Público Federal.

Pois eu li a liminar do processo contra Jonas Abib (1957502-1/2008), o padre que está tendo um livro queimado graças a uma ação judicial. O juiz Schmitt solta uma afirmação bastante contraditória, ao dizer que

"A proteção a liberdade de consciência e de crença, bem como do livre exercício dos cultos religiosos, encontra-se alçado a nível constitucional, assim como a impossibilidade de alguém ser privado de direitos por motivo de fé ou de ideologia filosófica ou política, consoante encartado nos incisos VI e VII, do artigo 5º, da CF/88".

Como assim? Se é constitucionalmente impossível privar alguém devido a ideologia ou fé, como então o juiz manda

"O imediato recolhimento, em todas as livrarias e bancas de jornal e revistas localizadas nesta Capital, dos exemplares postos a venda da obra Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de cura e libertação, de autoria do acusado e publicada pela Editora Canção Nova".

Ora, para mim isto é impedir uma pessoa de se expressar livremente devido ao conteúdo da mensagem, que nada mais é do que a exteriorização da “fé ou de ideologia filosófica ou política”. Além disso, a liminar contém um outro absurdo:

"O perigo da demora está evidente, uma vez que a disseminação das idéias defendidas pelo acusado deve ser provisoriamente cessada, até que o mérito do caso em tela seja resolvido, como forma de evitar possíveis danos irreparáveis ao patrimônio cultural e à dignidade da pessoa humana (sic), sobretudo daqueles que tem sua matriz religiosa nas religiões atacadas pelo conteúdo do livro em debate. Ademais, o número trazido de vendagem da obra, igualmente, reclama a adoção desta medida, como forma de buscar se evitar um maior acirramento de conflitos étnico-religiosos".

“Maior acirramento de conflitos étnicos-religiosos”? Desde quando o livro estaria causando conflitos étnicos-religiosos? Aliás, desde quando uma religião tem a ver com a etnia de alguém? Salvo melhor juízo, o objetivo de qualquer religião é arregimentar o maior número possível de seres humanos, e não de pessoas humanas (sic) algo que só existe no gabinete de Schmitt, se não toda a humanidade.

Agora, comentários sobre a ação em si. Uma das características da religião é a crença em dogmas, ou seja, verdades absolutas que não podem ser contestadas e que são dadas pelo ente superior de tal religião. Um dos dogmas da Igreja Católica é a crença num único deus. Então, qualquer religião que acredite em mais de uma divindade, como é o caso das tais “religiões afro-brasileiras”, está em desacordo com a verdade absoluta em que os católicos acreditam. Além disso, é importante notar que a Igreja Católica tem outro dogma, o Extra Ecclesiam nulla salus, que diz que não há salvação fora da Igreja Católica, e uma pessoa que não pode ser salva irá para o inferno, e quem manda no inferno é o Dito Cujo.

Ora, se as religiões são baseadas em dogmas, então não há de se falar em discriminação, pois na visão da Igreja Católica, ou mesmo das tais “religiões afro-brasileiras” que o juiz não especifica quais são, qualquer outra religião está em desacordo com a verdade absoluta, assim como qualquer lei que proteja o reconhecimento de tais igrejas, pois aí o Estado estaria patrocinando um ataque ao Bem, ou seja, alinhado-se ao Mal.

Importante notar que a publicização de qualquer pensamento, por mais ofensivo que este pode ser a uma pessoa, não impede a mesma de continuar em sua fé ou ideologia. Existe uma grande diferença em se expressar e impedir alguém de professar sua fé. Desta forma, é perfeitamente legítimo ao padre Abib, ou a qualquer outro sacerdote de outras religiões, fazer críticas aos aspectos ideológicos das outras religiões, para arregimentar mais fiéis para a fé que acredita ser a portadora da verdade absoluta. O que seria bem diferente de o padre Abib estar na frente de uma porta de um local de culto de uma religião qualquer armado com um rifle M-16, ameaçando os fiéis. Aí sim, e somente aí, haveria um crime.

O que esta ação judicial quer, cuja “vítima” é o Centro Espírita Cavaleiros da Luz - Cidade da Luz (como se uma instituição tivesse consciência para poder ser ofendida) e cujo diretor não é novato no uso do Ministério Público para processar interesses católicos, é impedir um ser humano de expressar aquilo que é parte constituinte da sua consciência, impedindo-o de existir, pois uma pessoa que não pode se expressar não existe naquele mundo dos códigos onde ele está inserido.
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