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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Diálogos palestinos – II

Ele:
- Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra. (Mt 5,5)
Um seguidor resolveu perguntar:
- Então devemos sempre ser mansos e pacíficos?
Ele:
- Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. (Mt 5,44)
Ainda curioso o seguidor:
- E se for pelo inimigo provocado, devo ser ainda manso e pacífico?
Ele:
- Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. (Mt 5,38-39)
E, saindo dali, foram ao templo. Então:
E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; tendo feito um açoite de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: tirai daqui estas coisas. (Jo 2,14-16)
Um seguidor assustado questionou:
- Mas acabaste de ensinar sobre a mansidão e a paz, como entras assim no templo chicoteando pessoas e derrubando seus pertences?
Ele:
- Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. (Mt 12,34)
Um seguidor:
- Mas, cara, não era para dar a outra face e jamais reagir ao mal?
Ele:
- Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. (Mt 5,25)
Um seguidor:
- Mas tu fizeste isso?
Ele:
- Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus. (Mt 5,48)
Um seguidor:
- Ah, vai à merda...

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A guerra religiosa não declarada no Brasil

Onde isso parará?

Os evangélicos estão conseguindo transformar esse País num lugar de ódio, medo, intolerância e discriminação.

O vídeo apresentado no endereço abaixo é uma reportagem do SBT sobre a agressão sofrida por uma menina de 11 anos, executada por homens evangélicos, após sua saída de um culto do candomblé.

E se alguém reagisse e espancasse os crentes agressores? Ah, certamente algum deputado da famigerada bancada evangélica ou um pa$tor bandido qualquer (desses que pregam ódio em canais de TV) sairia a gritar: cristofobia!

O Brasil está em guerra. E é uma guerra entre a razão, o amor e a tolerância democrática contra o ódio, o medo e o fundamentalismo religioso medieval.

E de que lado você está?

http://www.sbt.com.br/jornalismo/noticias/53577/RJ:-Homens-agridem-garota-que-voltava-do-culto-de-candomble.html#.VYLIK_lVhBc

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Diálogos palestinos - I

Ele:
- Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de deus. (Mt 5,9)
Um seguidor:
- Puxa, que bacana...
Ele:
- Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a. (Lc 22,36)
Um seguidor:
- Não entendi, se é para pacificar, para que comprar uma espada?
Ele:
- Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. (Mt 12,34)
Um seguidor:
- Calma, tio, é só uma perguntinha! Eu só não tinha entendido. Aliás, continuo sem entender...
Seguem-se vários eventos até sua prisão.
Um seguidor:
Estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. (Mt 26,51)
Ele:
- Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. (Mt 26,52)
Um seguidor:
- Porra, cara, decida o que tu queres! Para que comprei então essa espada? Para brincar de soldadinho?
Ele:
- Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. (Mt 10,34)
Um seguidor:
- Ah, vai à merda...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Até quando, Israel?

Fonte: Caros Amigos
http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=dointernauta&id=96

Em dez textos que se estendem por dez páginas, Caros Amigos analisa a agressão de Israel contra os palestinos em Gaza. Escrevem e opinam árabes, judeus e especialistas de outras etnias. Um trabalho especial que ajuda você a entender melhor o que se passa no Oriente Médio.

Sob os escombros, há histórias inimagináveis
Prensa Latina entra em Gaza duas semanas depois da agressão israelense iniciada em 27 de dezembro de 2008. Um retrato da barbárie israelense e um testemunho do que ainda não se sabe.

A comunicação telefônica é quase um dom divino para os que estão na prisão a céu aberto que Israel fez de Gaza: entre bombas, destroços, mutilações e carências, alivia poder dar sinais de sobrevivência. O invento atribuído a Graham Bell é tão sagrado para falar com o parente ou conterrâneo além das fronteiras como tentar saber a sorte da amiga de Jebaliyah, o parente surpreendido por um bombardeio em Khan Younis ou o vizinho que vive a três portas.

A agressão iniciada em 27 de dezembro em duas semanas fez ficar sem energia elétrica 1 milhão de palestinos – de um total a que se há de acrescentar mais 500 mil pessoas. O arrepiante panorama ajusta-se às calamidades de Khalil, a incerteza de Alina, o luto de Mohamed, Jasmeen e Ashrat, o trauma de crianças socorridas por Osama ou as feridas na própria carne de Ahmed e outras 4.300 pessoas.

A falta de eletricidade afeta os habitantes de um território em época de inverno, onde a água corrente não é potável e a especulação torna impossível a compra de água engarrafada, enquanto muitas padarias deixaram de produzir. O pão, sobretudo, conhecido como árabe ou pita, básico na alimentação diária dos mais pobres acompanhado com feijões e verduras, custa caro.

Vegetais, frutas e outros alimentos se esfumaçaram, e o pouco que havia tinha “preços muito elevados”, relataram homens que preferiam manter a família em casa e sair para procurar nas três horas diárias de frágil trégua humanitária. Segundo a ONU, cerca de 750 mil palestinos necessitam de água potável, da mesma forma que serviços essenciais como o de saúde. Os hospitais funcionavam no início de janeiro a duras penas com conjuntos de geradores, enquanto os médicos não davam conta dos feridos e pediam aos gritos que não faltasse o combustível, que chegava quando os judeus permitiam a passagem de caminhões-tanque internacionais com limitados volumes. Os geradores elétricos também são prova de solidariedade humana, quando em noites de estrondosos bombardeios, vidros de janelas quebradas e intermináveis penumbras, alguns afortunados compartilham um fio “salvador” com seus vizinhos.
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“O desafio que os estadunidenses temos é conseguir ver a verdade por trás das mentiras”
Norman Finkelstein

O intelectual judeu americano NORMAN FINKELSTEIN defende que os responsáveis, moral e juridicamente, são Israel e EUA

Os registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na internet, na página do governo de Israel e, também, na página do seu ministério das Relações Exteriores. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsia quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinos, dia 4/11/2008. Depois, o Hamas respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel, “o Hamas retaliou contra Israel e lançou mísseis”.

Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes, até, de haver acordo de cessar-fogo. Conforme o Haaretz do dia 12, a chacina de Gaza começou a ser planejada em março de 2008.
Quanto às principais razões do massacre, acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de “capacidade de contenção do exército”, o que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo. Depois de ter sido derrotado no Líbano em julho de 2006, o exército de Israel entendeu que seria importante comunicar ao mundo que Israel ainda é capaz de assassinar, matar, mutilar e aterrorizar quem se atreva a desafiar seu poder pressuposto absoluto, acima de qualquer lei.
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O que eles temem? Ser levados ao “Tribunal de Nuremberg”?
Gershon Knispel, de Israel

“Tenho medo por Israel e Israel me dá medo.”
Marek Halter, escritor e pintor judeu francês, sobrevivente do Holocausto


Em 9 de novembro, descendo do avião, senti que algo não estava certo. Nos televisores do aeroporto de Tel Aviv, davam sem parar notícias sobre as quedas dos Kassams, foguetes caseiros das milícias palestinas, sempre em lugares abertos, com pouca destruição. Falava-se das ameaças aos assentamentos judaicos nos territórios ocupados, usando-se o novo nome, “assentamentos e cidadelas cobrindo Gaza” – de fato a cercavam. As manchetes se referiam à fuga dos habitantes de Ofakim, Shderot e outras cidades, no raio de até 40 km, alcance dos Kassams.

“Será que isto é a resposta eufórica dos militantes do Hamas e da Jihad Islâmica à nossa retirada da Faixa de Gaza? Tudo que queremos é a paz”, diziam as manchetes israelenses. Me lembrei da frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, antes da II Guerra Mundial: “Quando eles falam de paz, prepara-te para a guerra.” As rádios matraqueavam frases e hinos patrióticos que sempre se usa para preparar o público para o pior. Os comentaristas sugerem intervenção imediata “para deter esses ataques de Gaza”, “para destruir a infraestrutura e para liquidar a liderança política do Hamas a qualquer preço”.

Mas não saem da ordem do dia os resultados das pesquisas sobre as intenções de voto com vista às eleições antecipadas para meados de fevereiro. Bibi Netanyahu, líder do Likud, exige o retorno das forças israelenses para Gaza e já mais que dobra as intenções de voto, de 17 para 36 cadeiras. As manchetes prosseguem:

“Barak continua a levar seu Partido Trabalhista a um desastre sem precedentes”, pois de maior partido, desde a fundação de Israel, pode ficar em sexto lugar, com 7 a 8 cadeiras. Os conselheiros de Barak dizem:

“Ele deve parar de aparecer como indeciso e, ao contrário, agir firmemente em Gaza.”

Tzipi Livni, ministra do Exterior, herdeira de Ehud Olmert, primeiro-ministro forçado a renunciar acusado de corrupção, tenta sobreviver, igualmente ameaçada pela subida de Netanyahu. E Olmert ainda goza algumas semanas como chefe do governo, até o fim das eleições: não precisa mais se responsabilizar, sua carreira política foi cortada e, como se diz em Israel, “pode andar na chuva sem se molhar”, falando em devolver os territórios palestinos em troca da paz, de um lado, e de outro correr o risco de ser lembrado na história como principal responsável pelo fiasco da Segunda Guerra do Líbano, para fazer mais adiante um retorno triunfal por causa da blitzkrieg da Operação Chumbo Fundido.

A indústria da comunicação trabalhou de maneira fantástica. Amigos meus muito próximos de mim no combate contra a ocupação agora protestam contra mim com emoção:

“Podemos ficar calados vendo essas chuvas de Kassams que jogam sem parar sobre cidades? Eles precisam aprender a lição de uma vez por todas.” Respondi: “E vocês? Aprenderam a lição?”
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O que a mídia gorda não diz sobre Gaza
Camila Martins, Carolina Rossetti e Luana Schabib

1 – Qualquer oprimido estaria resistindo
O judeu israelense Yuri Haaz, 37 anos, filho de mãe brasileira e pai uruguaio que emigraram para “ajudar a construir a terra dos judeus”, mora desde 1985 no Brasil. Criado na tradição sionista, Yuri diz: “Sem a superação do sionismo, não haverá melhoras no conflito com a Palestina.” Seu depoimento: Meus pais, filhos de sobreviventes do Holocausto, aderiram a um movimento juvenil sionista no Brasil e foram pra lá em 1967, envolvidos pela ideologia, reforçada depois da Guerra dos Seis Dias. Estudei em Israel até a oitava série, e o que eles passam é que a Palestina era uma terra vazia, que os judeus vieram plantar no deserto, secar os pântanos, transformar aquilo em terra fértil.

Quando fiz 14 anos, meus pais resolveram voltar, não queriam que eu prestasse o serviço militar em Israel e estavam começando a se decepcionar com a violência exercida sobre os palestinos. Fui para Foz do Iguaçu e fiz Letras. Num trabalho acadêmico, mostrei que a violência só é possível se você desumaniza o inimigo.

Entrei em contato com novos historiadores israelenses, os revisionistas. Israel foi fundado por uma decisão totalmente injusta das Nações Unidas, dando uma parcela maior da terra pra uma minoria, os judeus. Tudo sob violência. Desconstruir os mitos foi doloroso, fiquei doente, mas não sou um caso isolado. Hoje você tem jovens que se recusam a entrar no exército em Israel. Outro movimento combate a demolição de casas de palestinos. Israel destrói, esse grupo ajuda a reconstruir.

A mídia nunca vê os ataques de Israel, mas a reação do Hamas, que aparece como um primeiro ataque, justificando a ofensiva desproporcional. E foi o que ocorreu em Gaza. Qualquer outro povo que estivesse oprimido dessa maneira estaria mantendo essa resistência.

2 – Pequena história da Palestina
O nome, tradução latina de Filistéia, foi dado pelo Império Romano à região que hoje engloba Israel, Gaza e Cisjordânia. Era habitada por filisteus, judeus, cananeus. No início da era cristã, os romanos expulsaram judeus e destruíram o templo principal. Com exceção dos judeus, a maioria se converteu ao cristianismo, depois ao islamismo.

Após muitos impérios, em fins do século 19 a região era dominada pelos turcos. Dos 500 mil habitantes, a maioria muçulmanos, 10% eram cristãos e uns 5%, judeus. Os muçulmanos e cristãos eram arabizados. Na Rússia, o governo czarista culpa os judeus por todo mal que o povo sofre: milhares são mortos e os sobreviventes fogem. Um judeu húngaro, Theodor Herzl, publica documento que diz que os judeus devem ter sua própria terra. Depois de estudar lugares como Uganda, Argentina, e Amazônia, os sionistas escolhem a Palestina, a “Terra Prometida” (sionista, de Sion, nome judaico de um monte de Jerusalém). Em 1917, o governo inglês, “dono” da Palestina, arrancada aos turcos na I Guerra Mundial, aprova a criação de um Lar Nacional Judaico naquela terra. O povo árabe se alarma e percebe que, em poucos anos, eles seriam substituídos pelos estrangeiros. Diversos conflitos acontecem.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Israel e seus vizinhos

Michael Neumann
Terça-feira, 23 de fevereiro de 2010.

Fonte: Revista Fórum
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=8071

Nos últimos anos, o sionismo e a ocupação têm sido criticados. A fala laudatória dos EUA pró-Israel não deve enganar ninguém: a maioria, em todo o mundo, está ouvindo também as críticas a Israel, e mais as críticas que a louvação. Mesmo aliados pressupostos eternos e inabaláveis de Israel sabem que é preciso por fim à ocupação da Palestina; a maioria dos israelenses também pensa assim.

Por mais que a maioria dos críticos mais azedos goste de pensar que não, o governo dos EUA – o braço executivo do governo, com certeza – já aprendeu que sim, é preciso por fim à ocupação da Palestina. Quanto à imensa ajuda que não para de chegar a Israel, é preciso considerar dois pontos. Primeiro, os EUA dão praticamente a mesma quantidade de dinheiro e de ajuda militar também aos Estados árabes e ao Paquistão – e vendem armamento de alta tecnologia aos Estados do Golfo. Segundo, a ajuda é parte de um patético esforço para subornar Israel e tentar que encontrem alguma espécie de acomodação razoável com o mundo árabe.

Para uns, a tentativa é patética, porque falsa. Essa visão é perversamente otimista e pressupõe um componente de fé curiosamente abundante na esquerda: a ideia de que os EUA sejam um colosso que poderia, num estalar de dedos, submeter todos os pigmeus que os cercam. Pense-se o que se pensar sobre o poder dos EUA em geral, essa ideia não se aplica ao relacionamento com Israel. Nem o poder de todo o mundo ocidental bastará para submeter Israel.

Israel não é apenas potência nuclear: é uma das principais potências nucleares do planeta. Ainda mais: é a única potência nuclear que brinca com a possibilidade de usar armas atômicas, mesmo que isso implique suicídio. Os estrategistas de Israel, talvez certos de contar com a aprovação divina, chamam a isso “opção Sansão”. Com um pouco de loucura e sorte, Israel pode, sim, detonar um muito assustador primeiro ataque nuclear contra qualquer potência da Terra. Não o fará, é claro, mas esse “é claro” depende de todos termos certeza de que nenhuma potência nuclear usará força militar para obrigar Israel a fazer seja lá o que for. No caso de Israel, nenhuma pressão implica suficiente pressão.

O que aconteceria, então, se os EUA fechassem a torneira da ajuda a Israel? Os que criticam Israel, inclusive alguns israelenses, mostram-se cada dia mais furiosos em sua exigência de que se feche, de vez, aquela torneira. Outra vez, o mesmo otimismo perverso.

Não há dúvidas de que Israel considera imensamente conveniente a ajuda que recebe dos EUA. Mas os EUA também consideram Israel imensamente conveniente. O establishment de defesa israelense não só produz, mas também desenvolve muitas capacidades que são vitalmente importantes para os EUA, dentre as quais os sistemas antimísseis, os robôs teleguiados (drones) e inúmeras soluções de ‘ciber-armas’. Por isso, sanções econômicas não funcionarão contra Israel. O país é dono de tecnologia abundantíssima e de armas e equipamento bélico que o mundo faria fila para comprar, praticamente a qualquer preço. Israel não é capaz apenas de sustentar-se financeiramente e economicamente; pode fazê-lo por vias comerciais catastróficas para o Ocidente e contra as quais o Ocidente nada poderia fazer.

Nada disso significa que o conflito Israel/Palestina seja insolúvel. Significa, isso sim, que a solução, seja qual for, não está em "nossas" mãos – dos que criticam, com certeza; mas tampouco está nas mãos das potências ocidentais.

A solução, seja qual for, terá de ser construída em contexto de real equilíbrio de poder no Oriente Médio. A possibilidade de que se alcance esse equilíbrio não é completamente inexistente ou obscura, mas envolve realidades que poucos desejam encarar.

Na melhor (!) das hipóteses, a possibilidade de paz, de fim do "terror" israelense/palestino, está nas mãos dos supostos terroristas, do Hizbollah e seus patrocinadores, entre os quais o Irã. É possível que o Hizbollah tenha poder suficiente para conseguir que os israelenses, como os brancos da África do Sul, sejam obrigados a ler nos muros e encontrem meio de conviver com o povo conquistado. Até a próxima guerra contra o Líbano, ninguém pode avaliar com certeza em que pé está essa correlação de forças.

Mas há outra possibilidade, mais assustadora. E só se converterá em menos assustadora se o Ocidente curvar-se ante o inevitável.

O mundo "árabe", como o Irã, com certeza sabe o quanto é esmagadora e perigosa a vantagem nuclear com que Israel conta. Mas esses países ainda não têm capacidade militar para enfrentar Israel, nem têm poder político para conseguir que outros países o enfrentem. O que acontecerá se se criarem os meios necessários para gerar esse poder político?

De fato, esses meios já estão disponíveis.

Hoje, o mundo – portanto, também o mundo "árabe" – sabe que o Ocidente jamais, nunca, em tempo algum, agirá contra Israel: todas as oportunidades para fazê-lo já vieram e já foram. Mais cedo ou mais tarde, o contexto empurrará cada um dos vizinhos a tentar, cada um, sua alternativa única ou individual. É alternativa cara, não apenas em dólares, mas também, muito provavelmente, em vidas humanas.

As nações árabes e o Irã acabarão por acionar seus direitos de não obedecer aos tratados de não-proliferação de armas nucleares. (São acordos escandalosos, em todos os casos, porque seu único efeito é proteger Israel contra qualquer competição, ao mesmo tempo em que garantem ao país uma carta branca na arena nuclear.) O mundo árabe, provavelmente com apoio de outras nações, poderá então investir num programa coletivo de pesquisa e desenvolvimento de usos da energia nuclear, com o objetivo declarado e explícito de construir tanto meios de defesa e segurança, como meios de uso civil da energia nuclear.

O simples anúncio desses planos – com os efeitos que terão sobre a moral israelense e a convicção do Ocidente – pode gerar resultados consideráveis, praticamente sem custo algum para ninguém. Se Israel persistir em sua obstinação, tratar-se-á de fazer andar os planos, aumentando sempre a pressão no sentido de que se encontre – ou se imponha – uma solução para o conflito Israel/Palestina.

É possível que essa ideia soe a muitos ouvidos como puro extremismo enlouquecido. De fato, o maior extremismo enlouquecido é deixar que Israel primeiro desenvolva e depois ostente suas bombas atômicas, ao mesmo tempo em que a mesma Israel amarra mãos e pés de suas vítimas potenciais. Para desatar essas amarras, basta voltar à política do equilíbrio de poderes que, por séculos, foi considerada a melhor garantia para a paz.

Hoje, essa ideia ainda soa como mera fantasia. Mas o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, andará na direção de implantar essa estratégia no reino das possibilidades reais. Coletivamente, aquelas nações têm toda a riqueza e as habilidades técnicas necessárias. Cada dia mais, todos se dão conta da imperiosa necessidade de por de lado as animosidades e trabalhar pela paz. Deve-se esperar que o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, canse-se, definitivamente, de ser tratado com violência e desprezo.

E qual o papel do ocidente, em tudo isso? Se for incapaz de qualquer participação mais ativa, basta que não se meta. Se insistir, haverá ranger de dentes, sangue, histeria, epilepsia moral. Talvez, depois, a loucura passe e o Ocidente consiga voltar a fazer o que fez tão bem, por tanto tempo: nada.

Tradução de Caia Fittipaldi. O artigo original, em inglês, pode ser lido em: http://www.counterpunch.org/neumann02222010.html

Michael Neumann é professor de filosofia na Trent University em Ontario, Canadá. É autor de What's Left: Radical Politics and the Radical Psyche and The Case Against Israel e de “What is Anti-Semitism”, em The Politics of Anti-Semitism editado pela editora Counterpunch, NY. Recebe e-mails em mneumann@live.com

domingo, 31 de janeiro de 2010

O massacre mórmon em Monte Meadows

Ou Como a religião torna os homens tão estúpidos.

Massacre mórmon volta à tona 146 anos depois
Igreja Mórmon é pressionada por parentes de vítimas da chacina de Monte Meadows a pedir desculpas

Sally Denton*
The New York Times
Notícia publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 1 de junho de 2003

SANTA FÉ, Novo México - Neste verão, quando as famílias perambularem por todos os Estados Unidos visitando locais históricos, existe um local - o Monte Meadows, no sudoeste de Utah - que não fará parte de muitos itinerários. O Monte Meadows, que fica a duas horas de carro de um dos destinos turísticos mais populares do Estado, o Parque Nacional Zion, é o local que o historiador Geoffrey Ward chamou de "o exemplo mais hediondo do custo humano cobrado pelo fanatismo religioso na história americana até o 11 de setembro".

E embora possa não ser um destino turístico importante, por um século e meio o massacre tem sido o foco de um debate acalorado entre os mórmons e a população de Utah. É uma discussão que atinge o cerne dos dogmas básicos do mormonismo. Isso, a mancha mais escura da história da religião, é uma realidade amarga e uma situação desafiadora para a moderna Igreja Mórmon, que luta para se livrar de sua história de extremismo.

Em 11 de setembro de 1857, em um monte no sudoeste de Utah, uma milícia da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou mórmons, atacou um comboio de famílias de Arkansas a caminho da Califórnia. Após um cerco de cinco dias, a milícia convenceu as famílias a se entregarem sob a bandeira da trégua e a promessa de travessia segura. Então, na pior carnificina de pioneiros brancos contra outros pioneiros brancos de toda a história da colonização dos EUA, aproximadamente 140 homens, mulheres e crianças foram mortos. Só 17 crianças com menos de 8 anos - a idade da inocência pela crença mórmon - foram poupadas.

Após a matança, a igreja primeiro alegou que os responsáveis tinham sido os índios Paiute, mas, à medida que surgiram provas do envolvimento dos mórmons, a igreja pôs toda a culpa em John D. Lee, um membro da milícia e mórmon fanático que também era o filho adotado do profeta Brigham Young.

Após quase duas décadas, como parte de um acordo para a transformação em Estado, Lee foi fuzilado em 1877. A igreja tem consistentemente negado a responsabilidade - rotulando Lee de renegado -, mas muitos historiadores acreditam que os líderes mó+rmons, embora nunca tenham sido processados judicialmente, ordenaram o massacre.

Agora, passados 146 anos, os descendentes de Lee e os parentes das vítimas vêm pressionando a Igreja Mórmon por um pedido de desculpas. O movimento por algum reconhecimento oficial por parte da igreja começou no final da década de 80, quando um grupo de descendentes de Lee, entre eles um ex-secretário do Interior dos EUA, Stewart Udall, começou a trabalhar para limpar o nome de seu ancestral.

Em 1990, descendentes das vítimas e dos perpetradores começaram a insistir com a Igreja Mormon para admitir a responsabilidade pelo morticínio e para reconstruir um marco em ruínas levantado no local por soldados do Exército americano, em 1859.

O atual presidente da Igreja, Gordon B. Hinckley - ele próprio um profeta que diz receber revelações divinas - tomou um interesse pessoal pelo episódio e, em 1998, concordou em restaurar o marco, onde ao menos alguns dos corpos estavam enterrados. Mas mesmo essa concessão acabou criando uma polêmica quando, em agosto de 1999, uma escavadeira da empreiteira contratada pela igreja desenterrou acidentalmente os ossos de 29 vítimas.

Após um debate entre autoridades de Utah e líderes da igreja sobre leis estatuais que exigem que ossos desenterrados sejam examinados por legistas para determinar a causa da morte, a igreja mandou enterrar rapidamente os restos mortais sem um exame mais detalhado que poderia ter chamado a atenção para a brutalidade dos assassinos. Um mês depois, em 10 de setembro de 1999, quando descendentes dos autores e das vítimas se reuniram para inaugurar um monumento financiado pela igreja no qual esperavam que houvesse um serviço religioso "curador", ambos os lados ficaram desapontados pelos comentários de Hinckley.

Ele continuou a negar a responsabilidade da igreja, chegando a acrescentar uma exoneração de responsabilidade jurídica que muitos consideraram afrontosa. "Que aquilo que nós fizemos aqui nunca seja interpretado como uma admissão por parte da igreja de qualquer cumplicidade nas ocorrências daquele dia fatídico", disse. Muitos consideraram esse discurso uma tentativa de evitar processos judiciais.

Mas a recusa da igreja em desculpar-se é mais complicada. Numa época em que religiões no mundo inteiro estão reconhecendo e mostrando arrependimento pelos pecados do passado, o massacre deixou a Igreja Mórmon num dilema.

Católicos romanos se desculparam pelo seu silêncio durante o Holocausto, metodistas unidos, pelo massacre de índios americanos durante a Guerra Civil americana, batistas sulistas, pelo apoio à escravidão, e luteranos, pelos comentários anti-semitas feitos por Martin Luther King.
Mas, diferentemente dos líderes de outras religiões que se acreditam guiados pela mão de Deus, os profetas mórmons são considerados uma extensão de Deus.

O reconhecimento da cumplicidade por parte dos líderes da igreja poria em dúvida a questão da divindade de Brigham Young e a crença mórmon de que são o povo escolhido por Deus.

Acreditando estar fazendo trabalho de Deus livrando o mundo de "infiéis", os fanáticos mórmons evangélicos cometeram uma das maiores atrocidades civis em solo americano. Sem uma verdadeira tentativa de prestação de contas e reparação, a igreja não escapará da sombra desse crime horrível que paira sobre ela.

* Sally Denton é autora do livro American Massacre: The Tragedy at Mountain Meadows, September 1857 (Massacre americano: a tragédia no Monte Meadows, setembro de 1857)
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