Num evento espírita promovido pela Federação Espírita de Goiás (FEEGO), Divaldo Franco, o famoso médium e orador espírita baiano, participou no dia 13/02/2018 de uma sessão de perguntas e respostas com jovens. No referido evento, um jovem pergunta a Divaldo:
“O que dizer sobre a ‘ideologia de gênero’?”
E eis a resposta, um tanto quanto confusa, mas é a resposta:
“É um momento de alucinação psicológica da sociedade.
[...]
Haroldo disse, em síntese, que se trata de um momento muito grave da cultura social da Terra e que é, naturalmente, algo que deveremos examinar em profundidade, mesmo porque nós vamos olhar a criança, graças à sua anatomia, como sendo o tipo ideal. E a criança nesse período não tem discernimento sobre o sexo. A tese é profundamente comunista, e ela foi lançada por Marx, sob outras condições. Que a melhor maneira de submeter um povo não era escravizá-lo economicamente, era escravizá-lo moralmente, como nós vemos através de vários recursos que têm sido aplicados no Brasil nos últimos 9 anos, 10, em que o poder central tem feito todo esforço para tornar-se o patrão de uma sociedade em plena miséria econômica e moral. Porque os exemplos de algumas dessas personalidades são tão aviltantes e tão agressivos que se constituíram legais e, porém, nunca morais. Todas essas manifestações que estamos vendo, graças à “República de Curitiba”, cujo presidente é o doutor Moro, e deve ser o desnudar da hipocrisia e da criminalidade. Aliás, o evangelho recomenda que não deveremos provocar o escândalo, e o nosso venerando juiz não provocou escândalo, atendeu a uma denúncia muito singela e, no entanto, levantou o véu que ocultava crimes hediondos, profundos, desvios de dinheiro que poderia acabar no Brasil com a tuberculose, com as enfermidades que vêm atacando recentemente, poderia educar toda a população e dar-lhe o que a nossa Constituição exige: trabalho, repouso, dignidade, cidadania. Mas, determinados comportamentos de alguns do passado muito próximo estabeleceram o marxismo disfarçado e a corrupção sob qualquer aspecto como princípio ético. A teoria de gênero é para criar na criança, no futuro cidadão, a ausência de qualquer princípio moral. Uma criança não sabe discernir, somente tem curiosidade. No mesmo banheiro, um menino e uma menina irão olhar-se biologicamente, sorrir e perguntar o de que se tratava aquele aparelho genésico que é desconhecido. E então nós defendemos repudiar de imediato e apelar para aqueles em quem nós votamos, somos responsáveis, e gritar para eles que somos contra, totalmente contra essa imoralidade ímpar. Vão me perdoar uma blasfêmia agora para adultos, os espíritas somos muito omissos. No nome falso e na capa da humildade achamos que tudo está bem, mas nem tudo está bem. É necessário que nós tenhamos voz. O apóstolo Paulo jamais silenciou ante o crime e a imoralidade. E Jesus muito menos, ele deu a César o que era de César, mas não deixou de dar a Deus o que é de Deus. Muitas aberrações nós silenciamos, afinal, disfarçadamente, vivemos numa república democrática. Os nossos representantes lá chegaram pelo nosso voto. Já está na hora de acabar de votar por uma alpercata japonesa, já está na hora de deixar de votar por causa do emprego que vai dar ao nosso filho, pensarmos na comunidade, uma comunidade justa não faltará emprego para todos, uma sociedade justa de homens de bem, de mulheres dignas, naturalmente estabelecerá as leis de justiça e de equidade, então nós evitaremos essas aberrações: o aborto provocado, esse crime hediondo, que está sendo tentado tornar-se legal. Por mais que seja legal, nunca será moral. Não somos contra quem aborta por essa ou aquela razão, falamos em tese: matar é crime, seja qual for a aparente justificativa. E agora, com a tese de gênero, estamos indiferentes, e de um momento para outro, pela madrugada, nossos dignos representantes adotam. Falávamos ontem a respeito de cartilhas do Ministério da Educação depravadas, para corromper as crianças, e que as escolas estão devolvendo ao Ministério. Que Ministério da Educação é esse? Que estabeleça fatos. Deu uma indignidade muito grande. Os pais devem vigiar os livros de seus filhos e, naturalmente, recusarem. Nós temos o direito de recusar, nós temos o dever de recusar. Victor Hugo já nos falava há mais de 150 anos: ‘o grande pecado é a omissão’. E Kardec nos falou que não era nobre apenas não fazer o mal, porque não fazer o bem é um crime muito grande. E então precisamos ser mais audaciosos, espíritas definidos, termos opinião. A doutrina nos ensina, e para os jovens, eu direi que há uma ética, liberdade, o sexo é livre, livre sim, mas ele não tem a liberdade de indignificar a sociedade. Poderemos sim exercer o sexo, é uma função do corpo e também da alma, mas com respeito e com a presença do amor. Portanto, a teoria de gênero, jamais!”
Um grupo de 65 espíritas, autodenominados progressistas, elaborou o seguinte manifesto, em reação às esdrúxulas declarações de Divaldo:
"Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás:
Espíritas que somos, os abaixo-assinados, tornamos pública a nossa desaprovação a diversas opiniões que foram expostas no vídeo que circulou essa semana nas redes sociais, e que depois foi retirado do Youtube. Declaramos que elas não nos representam e não representam o espiritismo, pois são apenas opiniões pessoais de seus autores, e que, em nosso entender, carecem de fundamento teórico e científico.
Aliás, médiuns e oradores não têm autoridade para falar em nome do espiritismo. Ninguém tem essa autoridade, nem mesmo instituições federativas. O espiritismo é uma ideia livre, cuja maior referência é Kardec, mas cujos livros também não podem ser citados como bíblia. Para manifestarmos ideias e posições do ponto de vista espírita, segundo a própria metodologia proposta por Kardec, temos de dialogar com a ciência de nosso tempo, usar argumentos racionais e adotar de preferência posturas que estejam de acordo com os princípios básicos da ética espírita, que são os da liberdade de consciência, amor ao próximo, fraternidade, entre outros.
O movimento espírita brasileiro está longe da unanimidade em todos os temas, sobretudo os que se referem a questões contemporâneas e, por isso, é importante delimitar as posições, para deixarmos claro que declarações como as que foram feitas neste vídeo não representam o espiritismo.
Dessa forma, rebatemos alguns pontos da referida entrevista:
1) Divaldo referiu-se à República de Curitiba e a seu suposto “presidente”, Sérgio Moro. Não existe uma República de Curitiba, pois segundo nossa Constituição só há uma República a ser reconhecida em nosso território, e é a República Federativa do Brasil. E a referência a um juiz federal de primeiro grau como o Presidente desta acintosa República é um grave desrespeito ao Estado, à nação brasileira, atribuindo a tal república poderes inexistentes em nossa Constituição. Além dessa nociva postura marcadamente messiânica e de culto à personalidade, pode dar a entender que o restante do povo brasileiro não presta e que não há pessoas boas espalhadas pelo Brasil dando o melhor de si.
2) Divaldo chama esse mesmo juiz de “venerando” – o que é altamente questionável, dadas as críticas de grandes juristas nacionais e internacionais à parcialidade desse juiz e a seus atos de ilegalidade, que feriram a Constituição, e às notícias que correm na mídia de seu conluio com determinados segmentos e partidos.
3) Divaldo assume uma postura claramente partidária, contrária ao PT – o que é de seu pleno direito, mas nunca em nome do espiritismo – fazendo, porém, uma crítica rasa, com uma miscelânea conceitual, chamando o governo desse partido de marxista e assumindo um discurso próprio da polarização extremista, manipulada e sem consistência que invade nossas redes sociais e nossa vida política, contribuindo para os momentos de incertezas e de medos em que vivemos.
4) Há uma fala extremamente problemática que se refere à chamada “ideologia de gênero”. Não existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores fundamentalistas da Igreja Católica e depois adotado pelas Igrejas Evangélicas. Existe sim uma área de pesquisa no mundo que se chama “Estudos de Gênero” – que teve influência de Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Judith Buttler. Os “Estudos de Gênero” se dedicam a procurar entender como se constitui a feminilidade e a masculinidade do ponto de vista social, se debruçam sobre questões de orientação sexual, hetero, homo, transsexualidade – ou seja, todos fenômenos humanos, que estão diariamente diante de nossos olhos. Podemos concordar com algumas dessas conclusões, discordar de outras, deixar em suspenso outras tantas. Esse olhar é muito recente na história e ainda estamos apalpando questões profundas e complexas – e em nosso ponto de vista espírita, não é possível ter plena compreensão delas sem a chave da reencarnação. Uma abordagem puramente materialista jamais vai dar conta do pleno entendimento do psiquismo humano. Mas estamos muito longe de ter gente reencarnacionista competente, fazendo pesquisa séria, para dialogar com pesquisadores com abordagens meramente sociológicas ou psicológicas. Então, nós espíritas, não temos ainda melhores respostas que os outros e não podemos, por cautela, seguir a cartilha dos setores conservadores mais radicais de generalizar esses estudos sob o termo, usado aqui pejorativamente, de ideologia, para desqualificá-los como “imoralidade ímpar”. Parece-nos que uma dose de humildade científica, prudência filosófica e bom-senso faria bem a todos nesse ponto, especialmente quando o domínio sobre os corpos e a sexualidade sempre foi um ponto central para as religiões ocidentais.
5) Divaldo revela também completo desconhecimento dessa área de estudos de gênero, alinhando-a ao marxismo e ao comunismo. As grandes lideranças desses estudos estão nos Estados Unidos e na Europa. Aliás, os estudiosos desse tema encontram-se em diversas correntes de pensamento, desde marxistas até pós-modernos de diferentes matizes e até liberais. Ao fazer isso, mais uma vez, mostra a adesão a um discurso pronto, midiático, que ressoa nos setores evangélicos e católicos mais radicais, que primam por taxar qualquer ideia ou debate que lhes desagrade com o termo “comunista” – um grande espantalho generalizante, simplista e esvaziado de sentido, mas que tem sido eficaz, ao longo dos tempos, para dar forma a medos sociais e, assim, orientar o ódio e o ressentimento das pessoas contra certos alvos.
Por fim, deixamos aqui as seguintes afirmações:
• Nenhum médium ou orador pode falar em nome de todos os espíritas ou em nome do espiritismo. Isso é, por si só, desonestidade intelectual;
• Quando um espírita, sobretudo se tem influência sobre a comunidade, manifesta uma ideia ou uma opinião, tem por dever se informar sobre os temas de que está falando, usar referências confiáveis e estar em consonância com a lógica, com a ciência e com o bom senso.
• Deve também, preferencialmente, defender os direitos dos mais fragilizados socialmente, no caso, as mulheres, as crianças, os membros da comunidade LGBT+, que são objeto dessas discussões dos estudos de gênero, justamente por estarem vulneráveis a todo tipo de violência e desrespeito em nossa sociedade, além dos negros e negras, as juventudes periféricas e as pessoas com deficiência.
• Não deve alimentar discursos de ódio partidário e nem medidas punitivas contra quem quer que seja: nossa bandeira é a da educação, da fraternidade entre todos e da paz, comprometidos com a democracia, a justiça social e a regeneração da sociedade."
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sábado, 17 de fevereiro de 2018
Divaldo, a "ideologia de gênero" e a reação progressista
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domingo, 21 de maio de 2017
Ainda a luta de classes
Aqueles que se envergonharam apenas na última semana com seu voto passaram a postar, com insistência, a frase marota "é tudo farinha do mesmo saco". Não, não é tudo farinha do mesmo saco. Não, não é tudo igual. Então faço breve digressão para entender melhor essa malandragem ideológica(1).
Há uma questão de fundo que permeia todo o jogo político: ela se chama "luta de classes". Já tratei desse tema durante a campanha eleitoral de 2014(2) e lhe retorno para tentar clarear o momento atual, haja vista ser tal categoria fundamental para o entendimento da dinâmica social, política e econômica.
Quando alguém afirma serem todos os partidos iguais ou que não existem direita e esquerda, reproduz o discurso da direita, intencional ou inconscientemente. Direita e esquerda são rótulos históricos(3) para posições ideológicas e políticas antagônicas. Enquanto a direita defende a primazia do capital sobre o trabalho, a esquerda defende a primazia do trabalho sobre o capital. E, nessa refrega ideológica, não há conciliação possível, porque os interesses são absolutamente contraditórios.
Capital e trabalho são classes sociais. Então, luta de classes nada mais é do que o embate dos interesses entre o capital e o trabalho. Por isso há partidos que são rotulados de esquerda e outros de direita, porque defendem uma sociedade formatada diferentemente. Por exemplo, quando o PSDB e o DEMo defendem o estado mínimo e a sua não intervenção nas relações de produção, o fim da aposentadoria e dos direitos do trabalhador, estão justamente defendendo os interesses do capital e subordinando o trabalho a esses interesses, pois entendem que o lucro é mais importante que a situação do trabalhador. Já quando o PSOL ou o PT defendem um estado mediador das relações sociais, os direitos trabalhistas e a melhoria da condição social do trabalhador, estão buscando defender os interesses da classe trabalhadora e regrando a atividade do capital de acordo com esses interesses, pois entendem que a condição de vida do trabalhador é mais importante que o lucro do capital.
Estando claros os conceitos, assim espero, resta-me aplicá-los à nossa realidade. Ao buscar desqualificar a luta do campo ideológico da esquerda na defesa da classe trabalhadora, igualando-a à luta do capital promovida pelos partidos de direita e demais aparelhos ideológicos de estado(4), como imprensa, instituições religiosas e empresas, o incauto trabalhador - porque não cabe falar do dono do capital - reproduz um discurso alienado, que o mantém submisso aos fortes grilhões do capital, uma vez que esse trabalhador não se sentirá motivado a se engajar na luta da sua classe social pela melhoria das suas próprias condições de vida. E mais, odiará a luta da classe a que pertence(5) porque não entende as diferenças profundas entre esquerda e direita.
Ao reduzir a atividade político-partidária à corrupção, dizendo que todos são farinha do mesmo saco, reproduzindo um discurso interessado da grande imprensa, o trabalhador alienado torna-se completamente inapto a lutar por seus direitos e passa a achar que as migalhas sociais oferecidas pelo capital, que são parte do jogo ideológico, são os únicos benefícios possíveis na sociedade desigual em que se insere. E passará a entender a sociedade através do olhar duma classe que não é a sua.
Então, não se deve reduzir a atividade político-partidária à corrupção, porque política não é sinônimo de corrupção. A corrupção se encontra em todas as atividades humanas e não é exclusividade do jogo político. Aliás, a corrupção é uma das formas de o capital exercer a soberania de seus interesses na sociedade. Políticos corruptos não são corruptos porque são políticos, pois seriam corruptos também noutras atividades do cotidiano, são corruptos por sua formação imoral. Dessarte, se há indivíduos corruptos no meio da classe trabalhadora - e os há -, em vez de desqualificar toda a luta da esquerda por conta disso, deve-se alijar tais indivíduos da liderança da classe trabalhadora.
Criminalizar a atividade política é um jogo ideológico cruel, porque justamente promove o desinteresse da classe trabalhadora na sua participação política, deixando ao capital todo o poder de definir a organização social em que se vive. Ao trabalhador resta lutar por seus direitos e conquistas sociais por meio dos partidos políticos de esquerda, dos sindicatos e dos meios de comunicação alternativos, como as redes sociais, a fim de tentar se contrapor ao avassalador poder do capital sobre a sociedade.
Então, meu amigo, na próxima vez que você postar um meme dizendo que no Brasil todos os partidos são iguais, saiba que você estará apenas promovendo o avanço dos interesses do capital sobre os direitos do trabalhador e, por corolário, reforçando a precária condição social da classe trabalhadora.
Notas:
(1) Essa "malandragem ideológica" é muito bem apresentada no livro de Clóvis de Barros Filho e Gustavo Fernandes Daineze, "Devaneios sobre a atualidade do Capital".
(2) No blogue Diálogos impertinentes -
http://dialogosespiritas.blogspot.com.br/…/luta-de-classes-…
(3) Vale a pena conhecer o porquê do uso desses rótulos, sugiro a leitura dum ótimo livro de Norberto Bobbio, "Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política".
(4) Sobre aparelhos ideológicos de estado, conceitos e entendimento de seu funcionamento na sociedade, recomendo a leitura do livro de Louis Althusser, "Ideologia e aparelhos ideológicos de estado".
(5) Vale a lembrança da famosa frase de Malcom X: "Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo".
(1) Essa "malandragem ideológica" é muito bem apresentada no livro de Clóvis de Barros Filho e Gustavo Fernandes Daineze, "Devaneios sobre a atualidade do Capital".
(2) No blogue Diálogos impertinentes -
http://dialogosespiritas.blogspot.com.br/…/luta-de-classes-…
(3) Vale a pena conhecer o porquê do uso desses rótulos, sugiro a leitura dum ótimo livro de Norberto Bobbio, "Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política".
(4) Sobre aparelhos ideológicos de estado, conceitos e entendimento de seu funcionamento na sociedade, recomendo a leitura do livro de Louis Althusser, "Ideologia e aparelhos ideológicos de estado".
(5) Vale a lembrança da famosa frase de Malcom X: "Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo".
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quarta-feira, 6 de julho de 2016
Espiritismo e política - II
Minha experiência em casas espíritas, e já é uma
longa experiência, contada em décadas e muitas casas diferentes, mostra que o
tema política costuma não ser muito bem vindo em palestras e estudos internos.
O que é uma pena.
Há duas justificativas mais comuns para essa
proibição implícita: uma é que o espiritismo não deve imiscuir-se em política
partidária por pretender um discurso universal, portanto não deve tratar de
política em suas atividades; outra é a crença que a discussão política leva à
dissensão, quebrando a harmonia necessária às atividades da casa ou do grupo,
focadas no atendimento a carências diversas.
Bem, penso que as duas justificativas são insustentáveis
e ilustram um comportamento mais prejudicial do que construtivo. Mas as enfrentemos.
Sem dúvida, o maior objetivo das propostas espíritas
é a transformação interior do homem, que significa a transformação de seus
sentimentos, de suas atitudes e de seus pensamentos. Lutar contra o orgulho e o
egoísmo que impedem nosso crescimento como indivíduos e cidadãos resume bem a
proposta de Jesus transcrita nas obras kardecistas.
Mas como realizar a transformação pessoal sem a
necessária convivência com o outro? Afinal, é justamente na convivência em
sociedade que conseguimos expressar nossos sentimentos, praticar nossas
atitudes e burilar nossos pensamentos. A comparação do homem em sociedade com o
lapidar da pedra em contato com outras é bem ilustrativo do processo de
transformação interior do indivíduo: só conseguimos melhorar a partir da
convivência, do contato, do conflito com o outro. Ou, de outra forma, só
mudamos a partir da experiência social com o outro. Isso significa que toda
meditação, oração e estudo de nada servirão se não conseguirem mudar nossas
posturas com o outro.
Nossas experiências sociais iniciam-se em família e
transbordam para grupos cada vez maiores no nosso processo de amadurecimento. E
em todos esses grupos precisamos colocar em prática nossa opção de ser
espírita: empatia, caridade, compreensão e respeito. E saber viver em grupos
sociais, buscando o melhor para nós e para todos é o que se pode traduzir muito
bem como política. Portanto, fazemos política o tempo todo em nossas relações
sociais. Fazemos política na família, no condomínio, na escola, no trabalho, na
casa espírita, em qualquer lugar, pois fazer política é justamente buscar
conviver bem nos grupos sociais a que pertencemos. E por que não podemos
estender essa busca pela melhoria de nossos grupos relacionais à dimensão do
nosso bairro, da nossa cidade ou da nossa nação?
Será que discutir nossas posturas em família causa
dissensão? Se não, por que discutir nossas posturas na cidade causariam? Viver
na cidade é ser cidadão e a casa espírita precisa discutir a cidadania. E isso
é política da melhor qualidade! O espaço de discussão do espírita é a casa
espírita por excelência e ela não se pode furtar a esse papel. Educar e
orientar o cidadão são auxiliá-lo em seu processo de transformação pessoal, é
ser espírita na melhor acepção da palavra.
Limitar a discussão política à discussão da política
partidária é reduzir o papel da política em nossas vidas. Isso não quer dizer
que não se pode também enfrentar esse tema, haja vista a nossa necessidade de
dialogar sobre as questões da cidade, e que essas questões podem resvalar,
algumas vezes, em questões partidárias. Mas outra coisa bem diferente da
discussão partidária, e de candidaturas para cargos eletivos, é a discussão sobre
ideologias e suas formas de enfrentamento dos problemas da cidade. Penso que o
diálogo ideológico é essencial até para o bom entendimento dos discursos
políticos, das notícias e dos fatos cotidianos que nos alcançam. E dialogar
sobre ideologias e suas formas de entender o mundo não é doutrinar, é educar,
portanto crescermos como indivíduos e melhor nos preparar para a atuação em
sociedade.
Quanto à questão da manutenção da harmonia do
ambiente da casa espírita como justificativa para a vedação do diálogo político
interno, penso que são tantas as questões que causam desarmonia entre pessoas,
que não seria esse o problema. Em verdade, não é o tema política que causa
desarmonia, mas a situação emocional e mental dos indivíduos, pois nos desarmonizamos
em qualquer situação que toque em ferida aberta ou melindre guardado. Se o tema
em questão leva à desarmonia, é uma ótima oportunidade para o trabalho na casa
espírita, pois temos a oportunidade de enfrentar um ponto que mexe na nossa paz
e na nossa tranquilidade. Ora, não é esse justamente o papel da casa espírita?
Deixaremos então de atender indivíduos, encarnados ou não, que exibem
comportamento desajustado porque pode causar desarmonia? Como se vê, discutir
política deveria ser como dialogar sobre qualquer questão, incluindo nossos problemas
mais incômodos, como aqueles que nos tiram do sério e expõem nossas severas dificuldades
emocionais e relacionais.
Sei que esse tema ainda é grande tabu nas casas
espíritas, mas é preciso enfrentá-lo para conseguirmos superar esse obstáculo e
tratar a política como parte da nossa formação integral.
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segunda-feira, 9 de maio de 2016
Ainda o verbete "presidenta"
Não tardará, provavelmente, para a Presidenta da República ser inexoravelmente golpeada pelos sórdidos homens da lei, feitores e obrigadores, mancomunados com os homens divulgadores de mentiras e ideias torpes.
Mas aqui não escrevo sobre o golpe e sua triste passagem para a história como mais um momento de entorpecimento midiático do povo, e sim sobre língua. Língua falada e escrita.
Muitos se assoberbaram de razões para desqualificar a ainda atual Presidenta pela escolha, há cerca de seis anos, do vocábulo inusual para ser citada e referenciada. Articulistas e sábios vetustos riram e desdisseram dessa escolha.
Fui, já há um bom tempo, consultar um amigo, afeito aos textos deliciosos e aos contos saborosos, que prontamente veio ao meu socorro. Disse-me ele, então, num de seus momentos de beleza ímpar:
"Capítulo LXXX
De Secretário
[...]
Respirei e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo .1
De Secretário
[...]
Respirei e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo .1
Disse-lhe: 'por que afinal não se tornara ele um apoio à escolha da presidenta?'
Disse-me ele, em sua astúcia singular: 'esses moços que riem e desfazem da presidenta não me leem, caro amigo, pois suas desditas não são literárias nem linguísticas, apenas rancorosas.'
Rimos juntos, e seu riso foi tão alto que o ouvi daqui, mesmo separados por mais de 130 anos."
1. Citação da obra "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, publicada como folhetim durante o segundo semestre de 1880.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013
Um café com um ex-presidente
Os finais de tarde dos sábados em companhia dum bom café,
cujos sabor e aroma me enlevam, e rodeado de livros numa boa livraria sempre
trazem oportunidades de reflexão sobre temas que incomodam ou tangenciam
algumas de minhas ideias. E essa tarde não foi diferente. Ao deleitar-me das
novidades literárias e culturais deparei-me com uma inusitada: Pensadores que
inventaram o Brasil, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Confesso que
relutei inicialmente em comprar e ler o novo livro do sociólogo e professor Fernando
Henrique. E também confesso que minha relutância apenas refletia meu imenso
preconceito por sua trajetória política, que, penso, macula inexoravelmente sua
trajetória acadêmica. Afinal, o presidente Cardoso foi, a meu ver,
politicamente covarde e perdeu oportunidades históricas de superar algumas de
nossas sérias dificuldades sociais e econômicas. E tal história repete-se,
infelizmente, com os governos petistas, apesar de achar que esses conseguiram
avanços um pouco mais significativos do que aquele. Mas não é de política partidária
que quero tratar, e sim de sociologia, e mais especificamente de Gilberto
Freyre, que considero um dos maiores pensadores brasileiros, quiçá o maior (não
poderia deixar de lembrar dum outro Freire, o Paulo, um gigante da filosofia da
educação).
Cumpri meu ritual bibliográfico hebdomadário: peguei o livro
que ora interessava-me, sentei-me numa mesa qualquer da cafeteria, cumprimentei
as atendentes pelo nome e, antes de ter a oportunidade de pedir meu cappuccino,
uma delas me perguntou: “o de sempre, senhor?”. Sorri, aquiesci e acresci: “bem
quente!”.
Após ritual quase religioso, desliguei-me do burburinho ao
meu redor e ajustei meu foco cognitivo à leitura em questão. As páginas foram
passando com celeridade, indicando que a leitura era por demais agradável. Sim,
eu vencera o preconceito inicial e aproveitava agora o bom texto crítico do
ex-presidente. Fui direto ao capítulo sobre Gilberto Freyre, um dos
“inventores” do pensamento brasileiro, segundo o autor. E nisso, posso
adiantar, em total acordo com minha insipiente interpretação sobre a realidade
brasileira. Sim, não há quem leia Casa-grande & senzala que não se sinta
pleno de entendimento sobre a nossa realidade social. Não é apenas um clássico
da sociologia nacional, é mais do que isso: é uma obra de arte que fala do
Brasil com mágica, beleza e ciência. Um dos livros mais impactantes que já li.
E não apenas o li, mas o estudei com os cuidados necessários à elaboração de
uma dissertação acadêmica.
Apesar de reconhecer o mérito indelével do pensamento freyreano,
o sociólogo Fernando Henrique reproduz uma crítica à sua obra que sói acontecer
no ambiente acadêmico: Freyre seria um conservador e um disseminador da ideia
da “democracia racial” brasileira, odiada por 10 entre cada 10 estudiosos das
sociologia e antropologia tupiniquins. Sua obra seria uma ode ao falacioso sistema
escravista condescendente e à visão pouco realista da situação do escravo em
terras brasileiras. E nesse jogo dicotômico, no qual reconhece valores quase
transcendentais na obra de Freyre ao mesmo tempo em que chega a propor certo
“mal estar que sua obra causou, e quem sabe ainda cause, na academia”, reforça
um preconceito quase juvenil a um constructo intelectual que beira o
insuperável na sociologia nacional.
“Seu café, senhor”, diz-me a atendente com simpatia, trazendo-me
à realidade da livraria e fazendo-me ouvir de novo o rumor do vai-e-vem e das
conversas das pessoas à minha volta. A pausa foi essencial para sorver a bebida
em seu calor original. Continuo minha leitura sempre breve na livraria, a ser
concluída em ambiente mais propício: a tranquilidade do silêncio.
Em nova imersão no texto sobre minhas mãos, lembro-me de
outras críticas já estudadas, como os comentários dos historiadores Robert Slenes
e Cristiany Rocha, que veem Freyre apenas como um defensor da ideia do
patriarcado como fonte singular da formação social brasileira, chegando a
afirmar que esse “inventor do Brasil” compara o escravo a um animal sem
controle dos instintos que vive em situação de prostituição doméstica. E aqui
não poderia deixar de citar Casa-grande & senzala explicitamente:
“temos que reconhecer o fato de que desde os dias coloniais
vêm se mantendo no Brasil, e condicionando sua formação, formas de organização
de famílias extrapatriarcais, extracatólicas que o sociólogo não tem,
entretanto, o direito de confundir com prostituição e promiscuidade. Várias
delas parecem ter aqui se desenvolvido como resultado de influência africana,
isto é, como reflexos, em nossa sociedade compósita, de sistemas morais e
religiosos diversos do lusitano-católico, mas de modo nenhum imorais para
grande número de seus praticantes” (Global, 2004, p.130).
Não obstante a clareza do discurso freyreano acima bem
ilustrada, questiono-me se há realmente problemas científicos nesse clássico da
sociologia nacional ou se as críticas que leio não passam de má vontade por
parte de alguns estudiosos mais interessados em propagar mitos raciais. Como diria
a socióloga Cynthia Sarti, Freyre desperta uma “apreensão” no meio das ciências
sociais; apreensão, complemento, causada pelo vigoroso painel que expõe das
relações sociais, culturais, étnicas e econômicas, impedindo a construção do
mito racial inverso àquele que se culpa Freyre. E o ex-presidente, em coro, afirma
ser a obra em discussão uma construção mistificadora, adjetivo posto garrido de
sofisticações que ainda assim não esconde a dureza da crítica, haja vista a
desconexão óbvia, conforme o fragmento exposto, entre a obra e o pensamento dos
que sofreram do “mal estar” por ela causado.
A obra de Freyre ainda carece de crítica mais bem
fundamentada. Talvez o tempo e a maturação de seu conteúdo entre os estudiosos
permitam uma análise menos ideológica e mais racional. Culpá-lo de mistificar as
diferentes participações étnicas na formação socioeconômica brasileira,
baseando-se apenas num desejo nada científico de criar situações que os fatos
históricos não corroboram, é justamente mistificar, num sentido mais preciso. É
fato que não tenho pendores de Teseu, mas obrigar Freyre a deitar no leito de Procusto
é, no mínimo, uma injustiça intelectual.
Acabou o café. Fechei o livro. Paguei a conta. Fui-me
embora. Em casa terei boa leitura garantida e uma discussão solitária a travar
com um ex-presidente.
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